terça-feira, 3 de setembro de 2013

PÚBLICO
Publicado catálogo das mutações genéticas na origem dos 30 cancros mais comuns

Identificados mais de 20 processos mutacionais no ADN que originam o desenvolvimento de cancro.
Mutações na molécula de ADN podem ter resultados catastróficos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA

O primeiro catálogo abrangente das mutações genéticas que originam os 30 tipos de cancro mais comuns é publicado na revista Nature, na edição em papel desta quinta-feira. A equipa internacional, que inclui os portugueses Carlos Caldas e Samuel Aparício, identificou — mediante o estudo do genoma de cerca de 7000 doentes — mais de 20 processos de mutações no ADN que conduzem ao aparecimento de cancro.
Todos os cancros resultam de mutações na molécula de ADN, que dá instruções às células para fabricarem as proteínas de que somos feitos. Essas alterações podem ser substituições nas “letras” (quatro pequenas moléculas) que compõem a molécula de ADN, em forma de dupla hélice, ou inserções de novas “letras” e o apagamento de outras.
Nalguns tipos de cancro sabe-se bem o que causa as mutações, como os químicos no fumo do tabaco ou a radiação ultravioleta, que danificam respectivamente o ADN das células dos pulmões e da pele e que, mais tarde, desembocam em cancro. Mas em muitos outros cancros desconhece-se a origem das mutações.
A equipa, liderada por Mike Stratton, director do Wellcome Trust Sanger Institute, no Reino Unido, compilou quase cinco milhões de mutações nos 30 cancros mais vulgares (desde o colorrectal e colo do útero até ao da mama, estômago e próstata) em 7042 doentes. Também sequenciou o ADN normal dos doentes, para se poder estabelecer a origem das mutações. Chegou-se assim a 21 processos distintivos (ou “assinaturas”) de alterações no ADN ligadas ao cancro.
“Identificámos a maioria das assinaturas mutacionais que explicam o desenvolvimento genético e a história dos cancros dos doentes”, frisa o primeiro autor do artigo, Ludmil Alexandrov, do Wellcome Trust Sanger Institute, citado num comunicado. “Estamos a começar a compreender os complicados processos biológicos que ocorrem ao longo do tempo e deixam estas assinaturas mutacionais no genoma dos cancros.”
Todos os cancros têm duas ou mais assinaturas, o que reflecte, segundo o comunicado, a variedade de processos envolvidos. Mas cancros diferentes têm diferentes processos mutacionais: se são só dois no cancro dos ovários, no do fígado são precisos seis. Algumas mutações existem em diversos cancros (há uma família de enzimas chamada APOBEC que está ligada a mais de metade dos tipos de cancro), enquanto outras são específicas de um único cancro. Em 25 cancros, as alterações genéticas estão ligadas à idade. Além de factores ambientais como o tabaco, outras mutações devem-se a problemas na reparação de danos no ADN.
Com este catálogo — com contributo de Samuel Aparício, da Agência do Cancro da Colúmbia Britânica, em Vancôver, no Canadá, e Carlos Caldas, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido —, os cientistas esperam que os tratamentos e a prevenção do cancro sejam cada vez melhores.
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