terça-feira, 16 de dezembro de 2014

PÚBLICO

Entrevista

“Estigmatizamos os pobres em vez de estigmatizarmos a pobreza”

O pretexto era mais uma campanha de venda de velas, neste Natal, para angariar fundos. Mas Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, falou sobretudo do país, da pobreza infantil, daquilo onde, na sua opinião, nunca se devia cortar. “As crianças e os mais velhos não dão lucro. Na óptica desta economia são despesa.”
“Se as crianças são menos saudáveis, vamos ter mais encargos com saúde; se são mais revoltadas, vão ser mais anti-sociais” Enric Vives-Rubio
Ironiza um pouco: “O sistema capitalista tem tido um mérito muito grande.” Um mérito que joga a favor do próprio sistema, “claro”. E que mérito é esse? “Põe os pobres contra os pobres. É o povo que aponta o dedo. E os mais populistas aproveitam esta forma de estar...” A entrevista a Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, acontece no mês do Natal, quando nas mesas da sede da Cáritas, em Lisboa, se multiplicam velinhas de todas as cores — destinadas a serem vendidas em mais uma campanha de angariação de fundos, num ano em que a pobreza infantil está em destaque em muitas das iniciativas típicas da época. Uma em cada três crianças portuguesas está em risco de pobreza ou exclusão social.
O que é ser uma criança pobre em Portugal?
É não ter possibilidade de fazer o número de refeições que se considera que são necessários. Temos crianças que, se não fosse a escola ou alguma Instituição Particular de Solidariedade Social em que estão, não teriam acesso a uma refeição digna. Para muitas, a única completa do ponto de vista dos nutrientes é a que recebem na escola ou na instituição. Depois, é não ter acesso a cuidados de saúde que são determinantes para superar doenças que se podem tornar crónicas. E não ter acesso a todos os recursos educativos que a generalidade das crianças têm. Quando digo recursos digo material escolar, apoio escolar para reforço das aprendizagens. Porque uma criança se não é bem alimentada, se dorme em condições precárias, tem um risco acrescido de contrair doenças e de insucesso escolar. Outro risco ainda é um que não estamos a acautelar devidamente e que está a tomar proporções próximas daquelas que existiam antes do 25 de Abril: o abandono escolar.
Acha que está a aumentar?
Está a aumentar. Por causa das carências económicas, da falta de recursos, mas também devido ao paradigma com que as crianças se confrontam: estar numa turma, perguntarem-lhes se trouxeram o computador, a maior parte levantar o braço e haver dois ou três que não levantam... Para esses dois ou três isto não cria vontade de ir à escola. Por outro lado, há crianças que já trazem consigo uma história, de pobreza geracional, e a escola não tem conseguido saber ser um espaço de integração. Pelo contrário, é um espaço de competição. E estas crianças são resilientes a muitas coisas, mas não são resilientes a uma competição que apela a um esforço cognitivo, que envolve também num esforço emotivo... a nossa escola não está projectada para atender personalizadamente a cada um destes casos.
O ambiente é hoje mais desfavorável para as crianças?
Não é hoje. É há muito. Simplesmente agora veio ao de cima porque o que tem fomentado isso colapsou. O sistema económico e financeiro que nos orienta só valoriza o que dá lucro, põe em primeiro lugar o que tem preço. E as crianças e os mais velhos não dão lucro. Na óptica desta economia são despesa. Aliás, na óptica de muitos governos, os investimentos que se fazem na educação, na saúde, na segurança social são despesa. E não se consegue ter o alcance político de perceber que podendo ser despesa num tempo concreto, vão ser, no futuro — e usando a mesma linguagem capitalista —, lucro.
Se as crianças são menos saudáveis vamos ter mais encargos com saúde, se são mais revoltadas, vão ser mais anti-sociais, e isso paga-se... Há muitos anos, um economista calculou o que um jovem gastou ao Estado numa só noite, a partir de um assalto que fez. Gastou mais nessa noite ao Estado do que se se tivesse investido na sua educação, nos primeiros anos de vida. Gastou no carro que assaltou, na montra que partiu, na fuga, no atropelamento que fez e, eventualmente, por ter ficado ferido com danos irremediáveis que o tornaram para sempre um dependente da sociedade... Esta sociedade capitalista quer resultados, quer os máximos resultados num curto prazo, e não previne.
Nos últimos três anos tem havido cortes significativos...
Há uma parte que compõe a troika, a dos nossos parceiros europeus, que é a mais inflexível. A Europa hoje traiu o ideal dos seus fundadores, é comandada por dois ou três países economicamente mais seguros — até ver —, e não tem sido nada solidária com os países periféricos. A crise bateu forte nestes países, nalguns, é verdade, por governação desgovernada — porque não foram todos responsáveis pela crise, não digam que foram todos porque não foram!
Todos os cidadãos?
Sim. Quando se diz que a culpa é de todos, não é verdade!
Essa ideia vem geralmente acompanhada de outra: a de que o país tinha todo que empobrecer um bocadinho...
Ideia perversa. Não foi isso que aconteceu com esta crise. A riqueza de alguns continuou a aumentar, continuou a aumentar o número de ricos.
Eu compreendo que a dívida tem que ser aliviada. Agora, primeiro que a dívida estão as pessoas. Quando veio o memorando e se percebeu que ele foi construído com bases não realistas (porque uma parte da dívida não estava identificada), este Governo devia ter imposto à troika uma revisão imediata... O memorando devia ter sido revisto, a dívida deveria ser paga num maior espaço de tempo e com taxas solidárias — porque estas taxas impostas pelo Banco Central Europeu são altamente injustas, não estão a baixar a dívida, estão a aumentar a dívida. E, pelos vistos, não estão satisfeitos porque querem exigir que países como a Grécia e Portugal cumpram mais medidas de reajustamento económico. A Grécia já reagiu — foi sempre mais indisciplinada e com isso teve sempre mais benesses. Espero que Portugal não ceda. Porque o orçamento que está previsto para 2015 já é bastante penoso. Numa altura de crise, de fragilidade como a que estamos a viver, nunca se deve mexer naquilo que pode criar alguns equilíbrios. Ter reduzido as prestações sociais...
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