"Fizemos um estudo de impacto social do nosso projeto-piloto em Sidonge, Quénia, que demonstrou o aumento do desenvolvimento e qualidade de vida neste país. Por exemplo, aumentou em 180% o número de raparigas a frequentarem a escola, devido à poupança financeira, 47% na melhoria das notas dos alunos devido à possibilidade de estudar à noite, fruto da iluminação instalada nas casas, contando ainda com zero casos de contágio de doenças nos consumidores de água potável proveniente do 'KUDURA'", adianta Vivian Vendeirinho, sócio-gerente da RVE.SOL.
A empresa foi uma das cinco pequenas e médias empresas (PME) inovadoras portuguesas que vão beneficiar de um investimento do programa Horizonte 2020 da Comissão Europeia para a realização de estudos de viabilidade dos seus projetos em países europeus.
Nesta 1.ª fase do programa europeu, a RVE.SOL recebeu 50 mil euros para elaborar o estudo de viabilidade do projeto 'KUDURA' no contexto europeu, em países como Portugal, Espanha, Polónia e outros. Este projeto engloba um sistema que permite gerar energia elétrica, através de painéis fotovoltaicos, produzir biogás, a partir dos resíduos orgânicos de origem animal, e purificar água, transformando-a em água potável.
Segundo o empresário, um dos objetivos desta 'startup' é a "criação de condições onde se pode incentivar o desenvolvimento económico e social e dar oportunidade de criação de emprego e negócio nesses locais".
Aquele estudo permitiu ainda a economia de 75% do rendimento mensal por família, com o uso de lâmpadas em vez de lanternas de querosene, redução em 72% do uso de querosene, poupança média de duas horas por dia em deslocações para carregamentos das baterias dos telemóveis, 100% de aumento na produção de mandioca e 66% de aumento em redes mosquiteiras resultando na prevenção da malária.
Moçambique, Quénia e Tanzânia são os públicos-alvo da empresa, que se dedica ao desenvolvimento sustentável rural. Foi em 2010 que surgiu a ideia de utilizar um contentor como uma central que gerava energia para a comunidade, biogás para cozinhar e que permitia ainda a purificação e captação de água para consumo.
"O conceito do 'KUDURA' consiste no aproveitamento máximo dos recursos locais para a geração de energia e captação de água. Estamos focados nos projetos de sistemas fotovoltaicos e nos sistemas de produção de biogás, que se baseia no aproveitamento de resíduos orgânicos de origem animal, em conjunto com a purificação de água. Estas foram as soluções que submetemos ao Horizonte 2020", adiantou Vivian Vendeirinho.
Segundo explicou, a ideia é aproveitar as necessidades do mercado europeu, sendo o mercado alvo a suinicultura e bovinicultura, "pois produzem elevada quantidade de matéria orgânica que geralmente não é aproveitada, sendo mesmo atiradas fora e, em diversos casos, por vias ilegais".
O empresário recorda o caso de Leiria e as descargas na Ribeira dos Milagres por algumas suiniculturas: "Já realizámos testes nessa ribeira e é possível obter água 100% potável, através do processo de filtração de água, instalado no 'KUDURA'. Os estudos de viabilidade vão continuar até junho e vamos elaborar um plano de negócio, para submetermos a candidatura à 2.ª fase, cujo financiamento é de 2,5 milhões de euros".
O aproveitamento dessa matéria orgânica permitiria "reduzir o impacto ambiental e utilizar energia renovável". Além disso, "caso exista produção de energia elétrica em excesso esta pode ser injetada na rede elétrica nacional, de acordo com a legislação".
A REV.SOL conta com uma filial em Maputo onde está a desenvolver projetos de eletrificação rural. A empresa está direcionada para o desenvolvimento e gestão de sistemas, focando-se na venda da energia elétrica e de água, através de um sistema de pré-pagamento por telemóvel.
"Estamos a trabalhar num sistema de leitura, controlo e pré-pagamento de energia. Devido às condições de vida, no contexto africano tem-se uma visão a curto prazo, sendo, por isso, de extrema importância, este conceito de negócio, que se baseia no pré-pagamento, onde não há uma conta para pagar ao final do mês", explicou Vivian Vendeirinho.
O responsável acrescentou que neste modelo "compra-se o serviço com um crédito", idêntico ao utilizado nas companhias de telecomunicações. "Quando o crédito acaba, já não há serviço. Juntámos esse conceito com a leitura e controlo de energia, o que assegura que o consumidor final só utiliza energia quando tiver crédito, evitando que fiquem faturas por pagar a longo prazo".