terça-feira, 13 de janeiro de 2015

RR

"E se a pobreza fosse ilegal?"

Crise fez disparar o número de pessoas que precisam de ajuda. Foto: DR
Esta é a proposta da organização "Impossible", que pretende ilegalizar a pobreza, enquanto violadora de direitos e deveres, e considerá-la um crime.
12-01-2015 7:27 por Ana Lisboa












A “Impossible” é uma organização criada recentemente por Henrique Pinto, ex-director da Cais, instituição que apoia os sem-abrigo na cidade de Lisboa. O mentor deste projecto reuniu um grupo de pessoas, todas elas determinadas em alcançar o impossível, “ ousar ir além dos limites”.
Nesse sentido, surgiu o Movimento Pobreza Ilegal. O objectivo é precisamente tornar a pobreza ilegal. Alega que tal como a escravatura foi abolida, também a pobreza deverá seguir o mesmo caminho.
O mentor deste projecto, Henrique Pinto, diz à Renascença que pretende “levar o Parlamento português a declarar solenemente que a pobreza é ilegal, é crime, é violadora de direitos e deveres”.
“Queremos também inscrever dentro da Constituição que Portugal é um dos países que tornou, num devido tempo, ilegal e que tudo fará para que onde a pobreza prolifere, as pessoas sejam punidas por isso”, sublinha.
Não basta a boa vontade e a generosidade de cada um e das instituições, admite este responsável. É preciso apostar em políticas sociais que devem ser “ousadas e corajosas, que coloquem no centro a importância e o valor da pessoa humana, não é o dinheiro”, porque, sublinha, “um paradigma que nos governa e do qual somos vítimas é o paradigma da idolatria do dinheiro”.
A organização “Impossible” está na fase de “pôr de pé uma estratégia que visa, sobretudo, fazer chegar a toda a gente a ideia: “E se a pobreza fosse ilegal? E se a pobreza fosse crime? Nós queremos provocar o pensamento de cada um, estimulá-lo”, diz Henrique Pinto.
O assunto vai ser motivo de vários debates organizados por núcleos locais, movimentos da sociedade e da Igreja. Fica a promessa de haver novidades durante o primeiro trimestre deste ano.
Os últimos números da pobreza são de 2012 e indicam que em Portugal 18,7 por cento das pessoas estavam em risco de pobreza.

ZAP aeiou

Investigadores identificam possível causa das falhas de memória

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Uma equipa de duas dezenas de investigadores de Portugal, Holanda, Estados Unidos e China acaba de identificar o “possível responsável pelo surgimento de problemas de memória”.
A equipa de investigadores dos quatro países descobriu que “os recetores A2A para a adenosina” têm “um papel crucial no surgimento de problemas de memória”, divulga a Universidade de Coimbra (UC) numa nota divulgada esta terça-feira.
A adenosina é a “molécula que funciona como sinal de stress no funcionamento de vários sistemas do organismo, especialmente no cérebro”.
Esta é uma “investigação sem precedentes”, sublinha a UC, adiantando que o estudo, envolvendo especialistas da Faculdade de Medicina e do Centro de Neurociências e Biologia Celular da UC, vai ser publicado no Molecular Psychiatry, “o mais importante jornal internacional da área da psiquiatria”.
A investigação, desenvolvida com “modelos animais (ratinhos) saudáveis”, permitiu verificar, pela primeira vez, que o funcionamento em excesso dos recetores A2A (“localizados na membrana dos neurónios”) é “suficiente para causar distúrbios na memória”, salienta a UC.
Para conseguir a máxima precisão na informação sobre o comportamento dos ratinhos durante as experiências, os especialistas de Coimbra envolvidos no estudo criaram “um dispositivo inovador para, através da utilização de uma técnica de optogenética (técnica que não existe na natureza e que utiliza a luz para atuar e controlar ocorrências específicas em sistemas biológicos), ativar este recetor de adenosina e controlar de forma única o comportamento dos circuitos neuronais”.
DR Rodrigo Cunha / UC
Rodrigo Cunha, investigador da Faculdade de Medicina e do Centro de Neurociências e Biologia Celular da UC
Rodrigo Cunha, investigador da Faculdade de Medicina e do Centro de Neurociências e Biologia Celular da UC
Assim, “no exato momento em que os modelos animais desempenhavam as tarefas de memória, foi possível verificar, inequivocamente, que uma simples ativação intensa do recetor A2A era suficiente para provocar danos no circuito e gerar problemas de memória”, explica Rodrigo Cunha, coordenador da equipa portuguesa.
Esta descoberta é determinante para a Alzheimer, doença incurável caracterizada pela perda de memória, nomeadamente “para o desenvolvimento de novos fármacos para o tratamento da demência mais comum”, sustenta Rodrigo Cunha.
“Se a simples ativação do recetor A2A é suficiente para causar distúrbios na memória, é possível desenvolver bloqueadores seletivos deste recetor“, acrescenta aquele professor da Faculdade de Medicina de Coimbra.
“Os investigadores já sabem o caminho a seguir”, conclui Rodrigo Cunha, recordando que “seis anteriores estudos epidemiológicos (alguns europeus) distintos” já tinham confirmado que “o consumo de cafeína diminui a probabilidade de desenvolver Alzheimer e que age sobre os recetores A2A (a cafeína liga-se aos recetores e impede o perigo)”.
Os investigadores pretendem agora “desenhar moléculas químicas semelhantes à cafeína capazes de atuar exclusivamente sobre este recetor, impedindo-o de provocar danos na memória”, conclui Rodrigo Cunha.
/Lusa

Implante flexível pode permitir que pessoas paralisadas voltem a andar

Paulo Matos
12/01/2015 11:14

Uma equipa de cientistas está prestes a testar em humanos um implante flexível de silicone que dá a possibilidade de pessoas paralisadas voltarem a controlar os seus membros.

Investigadores da Ecole Polytechnique Federale de Lausanne, na Suíça, tinham apresentado no ano passado um sistema elétrico e químico de estimulação que permitia a ratos paralisados (devido a problemas na medula espinal) voltarem a controlar os membros. Agora, a CNet adianta que a tecnologia está perto de ser testada em humanos graças a um implante flexível que foi concebido para ser integrado na espinha do paciente, o que minimiza o risco de rejeição.
Este implante de silicone chama-se e-Dura e pode ser implantado diretamente no cérebro ou na medula espinal, debaixo da dura-máter. Os investigadores testaram o implante em ratos e descobriram que, passados dois meses, não havia tecido danificado ou rejeitado, o que permitiu aos animais voltar a andar.
O início dos testes em humanos está previsto para junho deste ano em Lausanne. Mais detalhes sobre esta investigação podem ser consultados neste artigo da Science e no vídeo em baixo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Ciência & Saúde  , ,

Identificado antibiótico eficaz contra bactérias resistentes

IRRI Images / Flickr
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 Investigadores identificaram um novo antibiótico, que, numa experiência com ratos, se revelou eficaz no combate a estirpes bacterianas resistentes, divulgou a revista Nature.

O antibiótico, chamado de teixobactin, é uma molécula natural que uma equipa de cientistas da Universidade Northeastern, em Boston, nos Estados Unidos, descobriu, passando em revista dez mil compostos extraídos de bactérias provenientes do solo e cultivadas sobre microrganismos, através de uma “câmara de difusão” introduzida na terra durante uma a duas semanas.

Testado em ratos, o teixobactin revelou-se eficaz sobre estirpes resistentes de bactérias como a “Clostridium difficile”, responsável por diarreias, a “Staphylococcus aureus”, na origem de intoxicações alimentares, e a “Mycobacterium tuberculosis”, que causa a tuberculose, de acordo com o artigo publicado na Nature.

Estirpes destas bactérias desenvolveram resistências aos antibióticos clássicos.
Segundo a investigação, liderada pelo bioquímico Kim Lewis, o teixobactin mata a bactéria, provocando a rutura na parede celular, um método semelhante ao de um outro antibiótico, a vancomicina, usada, desde a década de 1950, no tratamento de infeções bacterianas, mas como último recurso, e que ganhou resistências ao fim de 30 anos.

A equipa de investigadores salienta, como vantagens do novo antibiótico, a ausência de efeitos secundários, esperando iniciar ensaios clínicos com humanos dentro de dois anos, depois de aperfeiçoadas as propriedades farmacêuticas do teixobactin.
/Lusa

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

 LibreRed

Médico checo devuelve medallas de la “criminal” OTAN

 

Un ex médico militar de la República Checa ha decidido devolver las medallas que le concedió la Organización del Tratado del Atlántico Norte (OTAN), porque se siente avergonzado.
El teniente coronel Marek Obrtel, exdirector del hospital militar checo no 11 en Afganistán, que sirvió asimismo en Kosovo y Bosnia y Herzegovina, ha pedido al Ministerio de Defensa de su país que le retire las medallas que le otorgó la Alianza del Atlántico Norte. Según el médico, la OTAN es una “organización criminal” con “intereses muy brutales”.
El médico explica en su carta al Ministerio checo que devuelve sus medallas que recibió por su participación en misiones internacionales de paz, debido a que está “profundamente avergonzado” de servir en una organización “liderada por Estados Unidos con sus monstruosos intereses en todo el mundo.”
Según el médico, la actualidad muestra que “cualquier persona que cree un obstáculo para los intereses de EE.UU., incluso si protege la identidad, la economía y la soberanía de su país, debería ser borrado de la faz de la tierra”.
Obrtel explica que pudo comunicarse con los lugareños durante sus misiones, lo que le permitió analizar y evaluar la situación desde todos los puntos de vista. Estas conversaciones le convencieron que los pasos de la OTAN son “absurdos” y conducen a una nueva Guerra Fría.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

La Libre Belgique

International



Napoléon Bonaparte assurait que "c'est avec les hochets qu'on mène les hommes", mais plus d'un a refusé le ruban rouge du prestigieux Ordre de la Légion d'honneur qu'il avait créé en 1802, à l'instar jeudi de l'économiste français Thomas Piketty.
Auteur de l'ouvrage "Le Capital au XXIème siècle" qui connaît un immense retentissement international, l'économiste a déclaré: "Je refuse cette nomination car je ne pense pas que ce soit le rôle d'un gouvernement de décider qui est honorable".
Avant lui, le célèbre auteur de bandes dessinées Jacques Tardi l'avait refusée en 2013, affirmant vouloir "rester un homme libre et ne pas être pris en otage par quelque pouvoir que ce soit".
Les refus de la Légion d'honneur ne sont pas rares.
De La Fayette à Jean-Paul Sartre et Simone de Beauvoir, de Marie Curie à Brigitte Bardot, de Louis Aragon à Albert Camus ou de Bourvil à Bernard Pivot, des dizaines d'hommes ou femmes de lettres, scientifiques, politiciens, artistes, ou "anars" ont considéré cette "breloque" avec indifférence ou dédain.
Certains s'en sont estimés indignes, plusieurs ont voulu protester contre le pouvoir, d'autres ont affirmé leur opposition de principe ou s'en sont moqué. Georges Brassens en a même fait une chanson. Léo Ferré fustigeait "ce ruban malheureux et rouge comme la honte".
A ceux qui la lui proposaient, l'écrivain Marcel Aymé répondit en 1949, dans un article, qu'ils pouvaient "se la carrer dans le train".
Le compositeur Hector Berlioz, auquel l'Etat voulait payer une messe de Requiem avec le ruban rouge, au lieu de lui verser les 3.000 francs promis, s'écria : "Je me fous de votre croix. Donnez-moi mon argent!"
Le comédien et humoriste Coluche avait prévenu: "Si on voulait me donner la Légion d'honneur, j'irais la chercher en slip pour qu'ils ne sachent pas où la mettre".
D'autres s'indignent de la "désacralisation" d'une distinction, injustement refusée ou distribuée "comme des médailles en chocolat", selon Geneviève de Fontenay, qui présida longtemps le comité des Miss France.
Philippe Séguin, premier Président de la Cour des Comptes, décédé en janvier 2010, ne voulut pas la recevoir, jugeant qu'elle aurait dû revenir à son père, mort en 1944 pour la France.
L'écrivain Bernard Clavel s'estimant indigne de "porter le même ruban que (son) oncle qui avait versé son sang pour son pays", préféra rester "dans le clan de ceux qui l'ont refusée, où, disait-il, je côtoie Berlioz, George Sand, Littré, Courbet, Daumier, Maupassant, Eugène Le Roy et Marcel Aymé".
En 2012, la chercheuse Annie Thébaud-Mony, spécialiste des cancers professionnels, avait refusé cette décoration pour dénoncer l'"indifférence" qui touche la santé au travail et l'impunité des "crimes industriels".
Deux "promus malgré eux" du 14-Juillet 2010, Jacques Bouveresse, titulaire d'une chaire de philosophie au Collège de France, et l'organiste et compositeur Jean Guillou ont décliné sèchement la distinction.
Peu sensibles à cet "accessoire honorifique", ils ont fait savoir qu'ils l'auraient d'autant moins accepté qu'ils ne souhaitaient pas cautionner la politique du gouvernement en matière d'éducation et de culture.
En janvier 2009, les journalistes politiques Françoise Fressoz (Le Monde) et Marie-Eve Malouines (France Info) refusaient la décoration, arguant que "rien dans (leur) parcours professionnel ne justifiait pareille distinction".

SAPO Notícias

Economista Piketty recusa a Legião de Honra, a mais alta distinção de França

Lusa
O influente economista francês Thomas Piketty, autor de "O Capital no Século XXI", recusou hoje a mais alta distinção de França, a Legião de Honra, com críticas ao Governo socialista no poder.
"Acabei de saber que fui nomeado para a 'Légion d'Honneur'. Recuso esta nomeação porque penso que não cabe ao Governo decidir quem é honorável", disse Piketty à agência France Presse.
"Faziam melhor em concentrar-se no relançamento do crescimento [económico] em França e na Europa", acrescentou o economista, que em tempos foi próximo do Partido Socialista francês mas se distanciou das políticas do Presidente François Hollande.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014


GREENSAVERS

Inclusão Social

Isidore Electronics: a empresa que dá uma nova oportunidade a ex-reclusos e recicla lixo electrónico

Isidore Electronics: a empresa que dá uma nova oportunidade a ex-reclusos e recicla lixo electrónicoKabira Stokes, uma cidadã norte-americana, sempre se preocupou com as coisas que a nossa sociedade vê como descartáveis. Stokes odeia ver os metais pesados e tóxicos, utilizados nos dispositivos electrónicos, serem lançados para aterros – e contaminar a água e solo -, assim como também não gosta de ver antigos reclusos serem marginalizados pela sociedade.
Desta forma, em 2011, Kabira Stokes criou a Isidore Electronics Recycling, uma empresa com fins lucrativos, em Los Angeles, que recicla componentes electrónicos e, ao mesmo tempo, oferece oportunidades de emprego para antigos presidiários.
Stokes acredita que o sistema correctivo dos Estados Unidos não funciona – na Califórnia, estado onde fica a sua empresa, cerca de 61% dos condenados que cumpriram as sentenças voltam a cometer crimes e são novamente presos no espaço de três anos após a libertação.
A taxa de reincidência não é tão surpreendente quando se atenta ao facto de que muitos ex-presidiários reintegram a sociedade sem quaisquer habilitações profissionais e sem apoio social, o que leva o mercado de trabalho a discriminar as pessoas com antecedentes criminais. Tal como muitas vezes nos descartamos de forma irresponsável de componentes electrónicos e electrodomésticos, Stokes acredita, refere o Inhabitat, que também nos “livramos” de pessoas que consideramos inconvenientes.
Por cada 22.700 quilos adicionais de lixo electrónico que a Isidore Electronics recolhe, consegue empregar mais uma pessoa. Além de contratar antigos presidiários, esta empresa de reciclagem dá ainda formação aos novos funcionários, capacitando-os para destruir os dados antes do processo de reciclagem ou revenda dos dispositivos para que possam ser reutilizados. Os metais reaproveitados destes equipamentos podem ser reutilizados noutros dispositivos electrónicos, reduzindo assim a necessidade de recursos que são extraídos maioritariamente de regiões devastadas pela guerra.
A Isidore Electronics aceita todo o tipo de lixo electrónico, incluindo computadores, impressoras, cabos, baterias, telemóveis, microondas, entre outros, dos residentes ou empresas de Los Angeles.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

PÚBLICO

Relação condena empresa a reintegrar adventista despedida por faltar em dias de culto

Entre faltar ao trabalho e não cumprir o ritual adventista de "guardar o dia" de sábado, Rosário escolheu a primeira. Foi despedida. Agora a empresa é obrigada a reintegrá-la e a pagar os salários que lhe são devidos.
O descanso semanal ao sábado da Igreja Adventista do Sétimo Dia segue o princípio bíblico que recomenda a cessação do trabalho do crente para a reflexão pessoal e à família Miguel Manso/PÚBLICO
Ao fim de 21 anos a trabalhar na mesma empresa, Rosário (nome fictício) teve um processo disciplinar por faltar aos sábados. Enquanto membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia, a funcionária tinha acordado com os patrões que os seus turnos nunca calhariam ao sábado, o dia de descanso semanal e sagrado para os membros da sua religião.
Até que em Setembro de 2009, a entidade empregadora decidiu mudar-lhe os turnos da linha de montagem onde operava. Nas sextas-feiras, encontrando-se escalada no segundo turno (das 15h30 às 23h30), assim que atingia a hora do pôr do sol, Rosário abandonava o posto de trabalho. A 14 de Abril de 2010 - e após quatro processos disciplinares por se ausentar do posto -  foi ordenado o seu despedimento sem indemnização ou compensação. 
No processo -  que passou pelo Tribunal de Loures, Tribunal da Relação de Lisboa e Tribunal Constitucional -  o conflito residia no direito do trabalhador à liberdade religiosa e o direito do empregador à correcta gestão dos meios humanos ao seu dispor. E, mais importante que isso, estava em causa a interpretação do regime de flexibilidade de horário, uma vez que Rosário trabalhava por turnos.
De facto, o artigo 14.º da Lei da Liberdade Religiosa prevê o pedido de dispensa de trabalho por motivos religiosos (dia de descanso e de festividades e horários prescritos pela confissão) para trabalhadores em regime de flexibilidade de horário, sendo que tem de existir "compensação integral do respectivo período de trabalho", ou seja, um pedido de troca de horários. Não havendo flexibilidade no horário de trabalho, não seria legítima a dispensa: as faltas ao trabalho de Rosário seriam injustificadas. 
Era essa a argumentação da empresa. A entidade empregadora alegava que a funcionária não trabalhava em regime de trabalho flexível, mas sim em regime de turnos rotativos, "estando perfeitamente determinada a hora de início e termo do período normal de trabalho diário, a qual apenas variava em função da rotação do turno", lê-se no acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa a que o PÚBLICO teve acesso. 
Mas em Julho deste ano, o Tribunal Constitucional (TC) deu razão a Rosário, explicando que a Constituição protege a liberdade religiosa dos indivíduos, não podendo por isso "deixar de considerar incluídas no conceito de flexibilidade de horário (salvaguardada a possibilidade de compensação do trabalho não prestado em certo período) todas as situações em que seja possível compatibilizar a duração do trabalho com a dispensa do trabalhador para fins religiosos". Assim, o TC defende que era obrigação da empresa procurar uma solução, dentro do seu horário, que permitisse assegurar o "dia de guarda" da funcionária. 
A reforma do acórdão da Relação de Lisboa, tal como o TC tinha ordenado, foi feita este mês, a 17 de Dezembro, pelo Supremo Tribunal de Justiça. Ao fim de quatro anos, é dada ordem de reintegração da funcionária no seu posto de trabalho, ficando ainda condenada a empresa a pagar os salários desde a data do despedimento. Uma vez que não se conhecem os valores, o tribunal relegou o cálculo para mais tarde.
Casos como este e o de uma procuradora que há vários anos lutava em tribunal para que fosse reconhecido o direito de não trabalhar aos sábados, já tinham levado o ex-provedor de Justiça Alfredo José de Sousa a defender que a dispensa de trabalho por motivos religiosos deveria ser estendida a todos os trabalhadores e não ser circunscrita aos que estão em regime de flexibilidade de horário, como prevê a lei.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

PÚBLICO

Entrevista

“Estigmatizamos os pobres em vez de estigmatizarmos a pobreza”

O pretexto era mais uma campanha de venda de velas, neste Natal, para angariar fundos. Mas Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, falou sobretudo do país, da pobreza infantil, daquilo onde, na sua opinião, nunca se devia cortar. “As crianças e os mais velhos não dão lucro. Na óptica desta economia são despesa.”
“Se as crianças são menos saudáveis, vamos ter mais encargos com saúde; se são mais revoltadas, vão ser mais anti-sociais” Enric Vives-Rubio
Ironiza um pouco: “O sistema capitalista tem tido um mérito muito grande.” Um mérito que joga a favor do próprio sistema, “claro”. E que mérito é esse? “Põe os pobres contra os pobres. É o povo que aponta o dedo. E os mais populistas aproveitam esta forma de estar...” A entrevista a Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, acontece no mês do Natal, quando nas mesas da sede da Cáritas, em Lisboa, se multiplicam velinhas de todas as cores — destinadas a serem vendidas em mais uma campanha de angariação de fundos, num ano em que a pobreza infantil está em destaque em muitas das iniciativas típicas da época. Uma em cada três crianças portuguesas está em risco de pobreza ou exclusão social.
O que é ser uma criança pobre em Portugal?
É não ter possibilidade de fazer o número de refeições que se considera que são necessários. Temos crianças que, se não fosse a escola ou alguma Instituição Particular de Solidariedade Social em que estão, não teriam acesso a uma refeição digna. Para muitas, a única completa do ponto de vista dos nutrientes é a que recebem na escola ou na instituição. Depois, é não ter acesso a cuidados de saúde que são determinantes para superar doenças que se podem tornar crónicas. E não ter acesso a todos os recursos educativos que a generalidade das crianças têm. Quando digo recursos digo material escolar, apoio escolar para reforço das aprendizagens. Porque uma criança se não é bem alimentada, se dorme em condições precárias, tem um risco acrescido de contrair doenças e de insucesso escolar. Outro risco ainda é um que não estamos a acautelar devidamente e que está a tomar proporções próximas daquelas que existiam antes do 25 de Abril: o abandono escolar.
Acha que está a aumentar?
Está a aumentar. Por causa das carências económicas, da falta de recursos, mas também devido ao paradigma com que as crianças se confrontam: estar numa turma, perguntarem-lhes se trouxeram o computador, a maior parte levantar o braço e haver dois ou três que não levantam... Para esses dois ou três isto não cria vontade de ir à escola. Por outro lado, há crianças que já trazem consigo uma história, de pobreza geracional, e a escola não tem conseguido saber ser um espaço de integração. Pelo contrário, é um espaço de competição. E estas crianças são resilientes a muitas coisas, mas não são resilientes a uma competição que apela a um esforço cognitivo, que envolve também num esforço emotivo... a nossa escola não está projectada para atender personalizadamente a cada um destes casos.
O ambiente é hoje mais desfavorável para as crianças?
Não é hoje. É há muito. Simplesmente agora veio ao de cima porque o que tem fomentado isso colapsou. O sistema económico e financeiro que nos orienta só valoriza o que dá lucro, põe em primeiro lugar o que tem preço. E as crianças e os mais velhos não dão lucro. Na óptica desta economia são despesa. Aliás, na óptica de muitos governos, os investimentos que se fazem na educação, na saúde, na segurança social são despesa. E não se consegue ter o alcance político de perceber que podendo ser despesa num tempo concreto, vão ser, no futuro — e usando a mesma linguagem capitalista —, lucro.
Se as crianças são menos saudáveis vamos ter mais encargos com saúde, se são mais revoltadas, vão ser mais anti-sociais, e isso paga-se... Há muitos anos, um economista calculou o que um jovem gastou ao Estado numa só noite, a partir de um assalto que fez. Gastou mais nessa noite ao Estado do que se se tivesse investido na sua educação, nos primeiros anos de vida. Gastou no carro que assaltou, na montra que partiu, na fuga, no atropelamento que fez e, eventualmente, por ter ficado ferido com danos irremediáveis que o tornaram para sempre um dependente da sociedade... Esta sociedade capitalista quer resultados, quer os máximos resultados num curto prazo, e não previne.
Nos últimos três anos tem havido cortes significativos...
Há uma parte que compõe a troika, a dos nossos parceiros europeus, que é a mais inflexível. A Europa hoje traiu o ideal dos seus fundadores, é comandada por dois ou três países economicamente mais seguros — até ver —, e não tem sido nada solidária com os países periféricos. A crise bateu forte nestes países, nalguns, é verdade, por governação desgovernada — porque não foram todos responsáveis pela crise, não digam que foram todos porque não foram!
Todos os cidadãos?
Sim. Quando se diz que a culpa é de todos, não é verdade!
Essa ideia vem geralmente acompanhada de outra: a de que o país tinha todo que empobrecer um bocadinho...
Ideia perversa. Não foi isso que aconteceu com esta crise. A riqueza de alguns continuou a aumentar, continuou a aumentar o número de ricos.
Eu compreendo que a dívida tem que ser aliviada. Agora, primeiro que a dívida estão as pessoas. Quando veio o memorando e se percebeu que ele foi construído com bases não realistas (porque uma parte da dívida não estava identificada), este Governo devia ter imposto à troika uma revisão imediata... O memorando devia ter sido revisto, a dívida deveria ser paga num maior espaço de tempo e com taxas solidárias — porque estas taxas impostas pelo Banco Central Europeu são altamente injustas, não estão a baixar a dívida, estão a aumentar a dívida. E, pelos vistos, não estão satisfeitos porque querem exigir que países como a Grécia e Portugal cumpram mais medidas de reajustamento económico. A Grécia já reagiu — foi sempre mais indisciplinada e com isso teve sempre mais benesses. Espero que Portugal não ceda. Porque o orçamento que está previsto para 2015 já é bastante penoso. Numa altura de crise, de fragilidade como a que estamos a viver, nunca se deve mexer naquilo que pode criar alguns equilíbrios. Ter reduzido as prestações sociais...