quarta-feira, 15 de julho de 2015

Exame InformáticaCohitec: a cura da malária e o HIV detetado em três dias

Hugo Séneca
15/07/2015 

Um dispositivo que prevê a probabilidade de enfartes em menos de uma hora e outro que faz o diagnóstico do HIV em três dias. A malária pode ter uma cura. E alguns cancros de pulmão também. Eis a mais recente fornada dos projetos Cohitec.

João Nunes, líder da Daila, não tem medo da ambição: «por ano, são feitos 200 milhões de testes de diagnóstico do HIV. Nós queremos que, no futuro, esses 200 milhões de testes passem a usar o Nano-V». Como muitos dos 15 projetos que desfilaram ontem no encerramento do programa de empreendedorismo Cohitec, em Lisboa, a Daila ainda não tem um negócio. João Nunes não tira o pé do acelerador do otimismo: «queremos criar uma empresa até ao final do ano». O roteiro da Daila também prevê a estreia comercial para 2019, mas esse objetivo só será alcançado se a startup garantir cinco milhões de investimento. Sem esse dinheiro, a Daila não poderá desenvolver um dispositivo que faz o diagnóstico do vírus da Sida em três dias – um período bastante inferior ao período mínimo de um mês exigido pelos testes de diagnóstico atuais.
O programa Cohitec de 2015 pode não salvar o mundo – mas tem seguramente algumas das ideias mais ousadas que alguma vez saíram dos laboratórios e universidades portuguesas nas denominadas ciências da vida. No auditório do Pavilhão do Conhecimento, desfilaram com a diferença de minutos um projeto que promete a cura para a malária (Anti-Malarials), uma solução que pretende detetar a probabilidade de ocorrência de enfartes cardíacos em menos de uma hora (Sumthink), uma possível cura para um dos tipos de cancro do pulmão (Nanoplex); uma solução de dosagem mais adequada para anestesias (MedInfusion), e ainda um equipamento que poderá ser usado para detetar diferentes micro-organismos que estão na origem de infeções, e que deverá começar por incidir no diagnóstico da pneumonia (MDID) .
Mas nem só de ciências da vida vive o Cohitec. Eis outras ideias que facilmente se colam ao imaginário de qualquer futurista: a startup Ocean Swarm deu a conhecer esquadrilhas de pequenas embarcações robóticas que localizam cardumes prontos a pescar; a bOptimum prevê criar um sistema que estima consumos de água de uma cidade e reduzir os consumos de energia derivados da bombagem para os diferentes reservatórios; e a CoolMeat desenvolveu uma enzima que torna a carne mais tenra.
O entusiasmo de quem conclui o prestigiado curso de empreendedorismo é notório – e já faz parte da coreografia de quem tem de “vender a ideia” a investidores, jornalistas, especialistas ou outros curiosos que geralmente acompanham o lançamento de novos projetos desenvolvidos no programa Cohitec.
Pedro Vilarinho, coordenador do programa Cohitec, lembra que, entre uma boa ideia e um grande negócio, ainda vai um percurso longo: «Estes 15 projetos terão de ser analisados a fundo, para se poder saber qual o verdadeiro potencial que têm. No passado, houve projetos que achávamos que tinham potencial e acabaram por se revelar desilusões, e também outros em que não acreditávamos tanto e que se revelaram verdadeiras surpresas».
Nem todos os 15 projetos da mais recente “fornada” do programa Cohitec vão seguir em frente – e, mesmo entre os que são selecionados para etapas posteriores, há equipas que «desmotivam e regressam à universidade ou que se descobre que não estavam à altura das exigências», recorda Pedro Vilarinho.
Para quem quer seguir em frente, há um objetivo em comum: chegar ao mercado internacional e disputar segmentos que podem vir a valer centenas ou milhões de euros. Entre os casos de sucesso, destaca-se o grupo de seis empresas que se iniciaram no Cohitec e que já concluíram toda a fase de crescimento estando agora a chegar ao mercado, com produtos ou provas de conceito (ACS - Advanced Cyclone Systems, 5ensesinFood, Omniflow, Consumo em Verde - Biotecnologia das Plantas; Abyssal; e BioMode). No total valem mais de 40 milhões de euros e contam com 20 patentes registadas. Duas delas faturaram um total de seis milhões de euros.
Daniel Bessa, diretor-geral da associação Cotec, fechou a sessão de encerramento do Cohitec com uma certeza e um desafio: «É claro que temos boa ciência em Portugal e o nosso trabalho é transformá-la em negócios, empresas e empregos».
O programa Cohitec arrancou em 2004, com o objetivo de promover a conversão de cientistas em empresários. Em 12 edições, passaram pelo programa Cohitec 151 projetos de negócio de base de tecnológica, que deram origem a 26 startups, que atraíram 35 milhões de euros de investimento.

sábado, 27 de junho de 2015

ZAP aeiou

Material revolucionário de grafeno e sílica inventado em Aveiro

UA.pt
Sergey Luchkin, Gonçalo Cunha e Andrei Kholkin, investigadores do CICECO da Universidade de Aveiro
Sergey Luchkin, Gonçalo Cunha e Andrei Kholkin, investigadores do CICECO da Universidade de Aveiro
Uma equipa de investigadores da Universidade de Aveiro (UA) acaba de divulgar que o grafeno, quando combinado com a sílica, tem propriedades piezoeléctricas: pode gerar energia elétrica, através da compressão.
Este é um material que poderá vir a revolucionar a indústria tecnológica do futuro devido à sua resistência, leveza, transparência e flexibilidade, além de ser um óptimo condutor de electricidade.
A descoberta da piezoelectricidade do grafeno, ou seja, a sua capacidade de gerar energia eléctrica através da simples compressão do material, abre as portas a que, por exemplo, telefones móveis de nova geração e circuitos micro-ondas possam operar a uma velocidade e qualidade sem precedentes.
“Prevê-se que esta descoberta leve a uma nova era na utilização do grafeno em dispositivos microelectromecânicos”, antevê Andrei Kholkin, um dos autores da descoberta, publicada na Nature Communications.
O cientista do Departamento de Física e do CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro da UA, e líder da equipa de investigação, explica que “uma vez que o grafeno é muito fino e flexível, antecipam-se inúmeras vantagens face a materiais piezoeléctricos tradicionais”.
O investigador aponta, como exemplo, que a partir desta descoberta “a frequência da ressonância piezoeléctrica pode ser levada para a gama dos gigahertzs com um factor de qualidade sem precedentes”.
Andrei Kholkin não tem dúvidas: “Isto pode ser de grande utilidade para telefones móveis de nova geração ou circuitos micro-ondas”.
O grafeno, cujo estudo valeu em 2010 o Prémio Nobel da Física a Andre Geim e Konstantin Novoselov, cientistas da Universidade de Manchester, Inglaterra, é um material feito inteiramente de átomos de carbono que estão arranjados numa rede hexagonal e dispostos num plano.
“Este material tem propriedades excepcionais”, esclarece Andrei Kholkin salientando “a capacidade de conduzir a electricidade e o calor mas oferecendo uma resistência mecânica 100 vezes superior ao aço em relação ao qual é mais leve”.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

VISÃO Mundo

Nepal: Heróis acidentais

Pedro e Lourenço estavam no Nepal quando se deu o terramoto. Quase sem darem por isso começaram um movimento que pôs milhares de portugueses a ajudar os nepaleses - a Missão Obrigado, Portugal


Assim que se sentam numa mesa do restaurante Everest Montanha 2, em Lisboa, pedem um "chá picante". Têm saudades do Nepal. Mas não por muito tempo: antes do fim do mês, estão de regresso a Kathmandu. O trabalho de Pedro Queirós, 35 anos, e Lourenço Macedo Santos, 33, está ainda a começar.
Lourenço: Só viemos cá porque queremos chamar mais atenção para a causa.
Pedro: Ainda temos muito para fazer lá.
Os dois amigos chegaram ao Nepal na noite de 24 de abril, após uma longa viagem de mochila às costas por vários países asiáticos. A aventura, julgavam, estava perto do fim. Quinze horas depois de aterrarem, o chão tremeu, matando quase nove mil pessoas.
Pedro: Nos primeiros dias, tudo parou. O abastecimento de água, comida, eletricidade, recolha de lixo. Os estrangeiros tentavam abandonar o país. Mas os nossos passaportes tinham ficado numa agência de viagens local. Quando os recuperámos, três dias depois, já tínhamos andado pela cidade e visto o caos: gente a dormir nas ruas, filas de 500 metros para a água e para a comida...
Lourenço: Aí tomámos a decisão: aplicar todo o dinheiro, 1 700 dólares [1 500 euros] cada um, a apoiar as pessoas.
Pedro: A nossa primeira compra, nessa manhã, foi 50 quilos de arroz e 400 bananas. Voou tudo em cinco minutos. No mesmo dia, tivemos de voltar ao supermercado mais duas vezes, comprar mais 200 quilos e depois 400 quilos de arroz. Enchíamos táxis e organizávamos filas para distribuir.
Entretanto, Pedro, com viagem marcada para 1 de maio, publicou o seu NIB no Facebook para quem o quisesse ajudar a ajudar.
Pedro: As pessoas perguntavam: ficam aí até quando? Ainda vale a pena ajudar?
Lourenço: Mas nós tínhamos visto gente morta na rua! Pessoas a pedir-nos massa, arroz, leite para bebés. Como é que podíamos ir para a praia beber cerveja?
Não podiam e não foram. Com os fundos a crescerem e os amigos do Facebook a multiplicarem-se, Pedro e Lourenço redobraram os esforços. Levantavam-se às sete da manhã e nunca se deitavam antes das três, quatro da madrugada. Com a ajuda de uma associação local, a BPW, "profissionalizaram-se". Aprenderam a regatear nas lojas.
Pedro: Caíamos em cima deles. Colchões a 100 rupias? Não. Faz isso a 50. É o teu povo.
Desenrascaram uma carrinha de caixa aberta, diversificaram os alimentos de acordo com os costumes nepaleses e passaram a comprar também bens não alimentares, como pensos higiénicos. Tudo com dinheiro português.
Lourenço: Um dia, o Pedro, que anda sempre com os lápis de cor atrás, pegou num cartão, pintou a bandeira nacional e escreveu "Obrigado Portugal". Era uma maneira de agradecer às pessoas que tinham contribuído.
A imprensa internacional descobriu-os. A história passou no Japão, na Austrália, nos EUA. Foram capa da VISÃO. Voluntários do Brasil, do México, de Espanha e de Malta juntaram-se-lhes, entusiasmados com o exemplo. Logo perceberam que estava na altura de passar à fase seguinte.
Pedro: Começámos a pensar na reconstrução do país, tendo em conta as monções que aí vinham.
Lourenço: Fora de Kathmandu, vimos vilas completamente devastadas. Ficámos ainda mais tocados.
A "Missão Obrigado, Portugal" passou a concentrar-se em duas novas vertentes: um campo de refugiados (Campo Esperança) para 350 pessoas de uma vila próxima, que procuraram refúgio na capital, e a construção de casas temporárias, para enfrentar as violentas chuvas das monções.
Lourenço: Caíram muitas casas, mas cada tenda que montamos é uma vitória.
Pedro: Temos aproveitado as competências de quem chega. Voluntários que vêm só por uma semana são encaminhados para o Campo Esperança, onde podem brincar com as crianças, dar aulas, comprar comida. Uma arquiteta chegou precisamente quando estávamos a pensar avançar com as casas temporárias.
Lourenço: Estamos agora a construir duas ao mesmo tempo, com assinatura portuguesa. Quando voltarmos, já estarão prontas.
Pedro: E vamos ter mais.
Lourenço: Sim, isto é um projeto-piloto. A Saudade 1 e a Saudade 2. Mais tarde, vamos analisar e replicar.
Com a sobrevivência garantida, era tempo de se concentrarem na dignidade dos nepaleses.
Pedro: Instalámos uma televisão no Campo Esperança, organizámos um show de talentos para as crianças...
Lourenço: De repente, estava o campo todo a cantar, a dançar e a recitar poemas. Foi uma tarde mágica. Isto é fundamental para as pessoas esquecerem um bocadinho a desgraça e terem dignidade. Terem vida.
A missão humanitária dos dois portugueses corria tão bem que algumas organizações não governamentais, com dinheiro e meios mas emperradas pela burocracia, já se juntavam a eles.
Lourenço: Nós temos dois milhões de dólares que vieram de Itália e podemos dar o transporte, mas não temos comida.
Pedro: Eles tinham paletes de comida no aeroporto, mas não conseguiam tirá-la de lá.
Lourenço: Nós levantávamos o dinheiro e comprávamos comida. Em menos de 24 horas, arranjámos oito toneladas de lentilhas, arroz, sal, que depois foram transportados de helicóptero.
O trabalho continua longe de estar terminado. Pedro e Lourenço preparam-se para fazer as malas e regressar ao Nepal, onde devem ficar, pelo menos, até ao Natal. Os seis meses sabáticos que haviam tirado para a viagem pela Ásia esticaram, deixando-lhes as carreiras em suspenso. O plano de iniciarem as suas próprias empresas, cuidadosamente delineado, foi adiado.
Pedro: Se começar o meu negócio aos 34 ou 35... São cinco minutos da minha vida.
Lourenço: Sim, seis meses não é nada. E isto está a dar-nos uma enorme bagagem em organização, liderança, gestão, marketing...
Pedro: Este é o nosso maior projeto.
Quase duas mil e quinhentas pessoas já contribuíram para a causa. Mas a responsabilidade não os assusta: nem têm tempo para pensar nisso.
Lourenço: Ainda não parámos. Mesmo em Portugal. Estava a ler o Shantaram antes disto e não lhe consegui voltar a pegar.
Pedro: Eu gosto de pintar e escrever, e também nunca mais.
Com os 27 mil euros angariados pelos dois amigos (que guardam cada fatura do que gastam, e pagam as suas refeições do próprio bolso), já foram ajudados 50 mil nepaleses. Mas muito, muito mais há a fazer.
Pedro: Peço às pessoas: organizem jantares de angariação de fundos. Criem movimentos.
Lourenço: O dinheiro lá rende. Com o preço de um metro quadrado em Lisboa construímos uma casa para uma família no Nepal.
O apelo tem resultado - Pedro e Lourenço até já receberam poupanças de crianças que partiram os mealheiros para ajudar o Nepal.

domingo, 21 de junho de 2015

VISÃO

Destravar as defesas para travar o cancro

A combinação de duas moléculas biológicas, que levam o sistema imunitário a combater os tumores, está a entusiasmar os oncologistas

 

Imagens de PET (Tomografia por Emissão de Positrões) antes do tratamento com molécula anti-PD-L1 e 12 semanas após o início da terapêutica
Imagens de PET (Tomografia por Emissão de Positrões) antes do tratamento com molécula
anti-PD-L1 e 12 semanas após o início da terapêutica
O pior de tudo era a falta de ar. Atrapalhava os passeios de bicicleta e as idas à horta. A tosse persistente e a perda de peso ajudou a compor a suspeita. Depois de alguns exames, o diagnóstico chegou inequívoco, num dia de novembro de 2013: cancro do pulmão, inoperável. Mário Nolasco nunca fumou, "a não ser por brincadeira", mas trabalhou na soldadura, numa altura em que se facilitava nos filtros de proteção, e teve um hobby pouco amigo dos pulmões, a columbofilia. Mário Nolasco conta-nos a história sem dramas. A uma semana do seu 74.º aniversário, voltou a ir à horta perto de casa, em Fermentelos, Águeda, a fazer 10 a 15 quilómetros de bicicleta por dia e a apresentar umas bochechas rosadas, de quem vende saúde.
Nesta parte da conversa, entra o filho, enfermeiro, com o mesmo nome e igual serenidade, para acrescentar os pormenores médicos. Depois da quimioterapia, já com muito bons resultados, Mário Nolasco foi chamado a participar num ensaio clínico a uma nova molécula e, desde abril, de três em três semanas segue para o Hospital dos Covões, Centro Hospitalar de Coimbra, para levar a injeção. A TAC feita depois dos primeiros tratamentos explica o bom aspeto: o tumor voltou a encolher e não há progressão da doença.
"São resultados espetaculares," entusiasma-se o oncologista Fernando Barata, que conduziu o ensaio clínico e acabou de regressar da ASCO o maior congresso do mundo na área da oncologia. Este ano, só se falou de imunoterapia uma forma de tratamento que estimula o sistema imunitário a combater o tumor. Quando se forma um cancro, as nossas defesas são convocadas e, boa parte das vezes, dão conta, sozinhas, das células malignas (tal como acontece quando se apanha uma gripe). Mas o tumor tem várias estratégias de sobrevivência e uma delas passa por bloquear o sistema de defesa, através da proteína PD-L1 que impede as células T de fazer o seu trabalho. Com as novas moléculas, interrompe-se a ação da PD-L1. "Durante anos tentámos acordar o sistema imunitário. Mas agora já percebemos que não vale a pena acelerá-lo se tivermos este travão de mão puxado", ilustra o imunologista do Instituto de Medicina Molecular, Bruno Silva-Santos.
Estas novas terapias, da classe dos anticorpos monoclonais, começaram por ser testadas em melanoma, com resultados muito surpreendentes, que levaram à aprovação do ipilimumab a primeira molécula biológica indicada para o tratamento da doença que em estado avançado tem um péssimo prognóstico. "O melanoma é um tumor causado por uma agressão aberrante, a radiação ultravioleta, que é muito potente. Logo o tumor é muito imunogénico (desencadeia uma resposta imunitária)", justifica Bruno Silva-Santos. "Em tumores como o da mama, com uma componente hormonal, os resultados já não são tão bons." Depois do cancro da pele, vieram os testes em pulmão (onde também há uma causa externa - o tabaco - muito preponderante), e o rim.
De semanas a meses
"Num dos ensaios apresentados na ASCO, sobre a molécula nivolumab, passou-se de uma sobrevida de oito meses para 18 meses. Isto em doentes em estado avançado", continua Fernando Barata. "Em vinte anos nunca vi resultados destes. Quando conseguíamos que vivessem um ano e meio era muito bom. Agora, com os novos medicamentos, tenho doentes que continuam vivos ao fim de 2,5 anos."
Marta Soares, diretora da Clínica do Pulmão, do Instituto Português de Oncologia do Porto, também se mostra entusiasmada com este tipo de terapias. "Pela primeira vez, o alvo não são as células tumorais, mas o ambiente que as rodeia." Outra das vantagens é a quase ausência de efeitos secundários. "O objetivo, para já, tem sido controlar a doença em estadios avançados, mas agora vai começar a usar-se em fases mais precoces, em combinação com a quimioterapia", avança Marta Soares. "Há dez anos falávamos em aumento de semanas de vida. Agora falamos em meses e com qualidade", continua.
Para já, nenhuma destes novos medicamentos está aprovado na Europa. "Às vezes, aparecem-me doentes a quem me gostaria de prescrever um destes novos tratamentos, mas ainda não é possível", lamenta Fernando Barata. Outra questão que preocupa os médicos e os doentes é o acesso, depois da aprovação pela Agência Europeia do Medicamento. Quando chegam ao mercado, estas substâncias têm preços exorbitantes. Desta vez, a concorrência, com a existência de várias moléculas quase na mesma fase de desenvolvimento, pode contribuir para baixar o preço de medicamentos "quatro mil vezes mais caros do que o ouro", comparou Leonard Saltz, chefe do Serviço de Oncologia Gastrointestinal no Memorial Sloan Kettering Cancer Center, EUA, referindo-se ao ipilimumab (que pode custar 100 mil euros por dose), numa das sessões da ASCO dedicadas ao custo dos medicamentos inovadores. "O processo de fabrico é complicado. Tratam-se de moléculas biológicas, produzidas por células", justifica Bruno Silva-Santos. De qualquer modo, são tempos de mudança no tratamento do cancro. Não se pode ainda falar de uma cura. Mas pode ser o princípio do fim.

Renascença

"O Conde Ferreira é um manicómio, mas é o sítio no mundo onde existe mais amor. Ali existe Deus"

Miguel Borges descreve os dias passados no hospital psiquiátrico






O actor Miguel Borges passou três semanas num hospital psiquiátrico para participar num documentário. Sem rede, quase sem limites. Embarcámos numa visita guiada pelos corredores do Conde Ferreira e numa incursão pelas mentes dos que lá vivem. Com cicerone, mas sem guião.
04-06-2015  por João Carlos Malta






“Levantei-me, fiz a mochila e fui como se fosse para uma mercearia ou passar o fim-de-semana a casa dos meus pais”. Mas não foi. O actor Miguel Borges passou três semanas num hospital psiquiátrico. Vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. Ele e 47 pessoas com doenças mentais, todos fechados numa ala do hospital. Como é? Não dá para descrever em poucas palavras, fá-lo-emos em muitas. No entanto, fica uma tentativa. “É escalar uma montanha humana, descer um rio humano. É um desporto radical cerebral e emocional”, sintetiza.
Embarquemos então com Miguel nesta viagem pelos enormes claustros do primeiro hospital psiquiátrico construído de raiz para o efeito, o Conde Ferreira, no Porto. E vamos fazer uma tentativa arriscada: entrar na mente dos que agora lá habitam.
Antes, uma paragem prévia: vamos ao contexto. Miguel Borges vai para capital do Norte para participar num documentário do amigo Jorge Pelicano, “Pára-me de repente o pensamento”, que chegou recentemente às salas de cinema. Há um segundo objectivo: levar um banho de realidade e escrever uma peça que abordará a temática da doença mental. Isto era o que era para ser; porém, foi muito mais do que isso.
Ainda antes de pormos os pés no Conde Ferreira através das palavras de Miguel Borges, abre-se espaço à dúvida. Como é que um actor prepara uma coisa destas? Resposta desarmante: “Não preparei. Preparar é meter umas cuecas na mochila, é meter umas meias, e siga para bingo. Um caderno e uma caneta e mergulhar numa viagem.”
Espera lá, não há método nenhum? Há. “O processo foi despreparar-me completamente. Foi o inverso: ‘Como é que tu te preparas, despreparando-te?’ Tirando qualquer tipo de ideia que tivesses na cabeça sobre aquele universo, sobre aquelas pessoas. Nem sequer pensava no documentário. Não me interessa, estou despreparado, estou disponível, estou a aprender”, conta.
Preconceitos à porta, vamos finalmente “entrar” no Conde Ferreira. Algo que para Miguel não precisava de ter como motivo o trabalho. “Não era preciso estar sequer num projecto para passar ali três semanas ou um mês. Aquilo alimenta-te bastante, faz-te crescer”.
Brincar com o medoO universo da doença mental é um espaço em que o GPS que usamos “cá fora” se desorienta. É o desconhecido. E tudo o que não conhecemos gera à maioria medo. Apesar do “trabalho de despreparação” que o actor fez, os medos estão lá. É difícil tirá-los das gavetas em que estão arrumados dentro da cabeça. “Nos primeiros dias, chegas e olhas para as caras de alguns gajos e pensas: ‘Ele vai-me matar, vai-me espetar uma faca.’ Só as caras [pausa], as caras… [pausa] Com o tempo, começas a conhecer as pessoas e até lhes dás beijinhos na careca”, pormenoriza.
Mas até chegar aos beijinhos, no labirinto psicológico do medo há mais umas armadilhas para desactivar. O sol cai lá fora. “Nas primeiras noites, dividia o quarto com o Chico, meu grande, grande amigo. Confesso que tive receio. Medo é forte de mais”, relembra.
Pára, repensa. E reformula. “Posso ter tido medo, ainda assim nunca o alimentei”. Nunca também é demasiado forte. Miguel alinha de novo o pensamento, como que à procura das palavras que melhor definam os sentimentos. “Se tu o alimentares, também fazes uma viagem muito interessante. Decides andar pelos corredores. Metes-te ali em situações, e começas a pensar: ‘Este gajo está aqui, não era suposto´”.
O que fazer na escuridão de um hospital psiquiátrico? Miguel avançou. No entanto, havia uma pergunta que o absorvia: “E se te espetarem uma faca?” A resposta racional vinha a seguir: “Não espetam. Já estou preparado para isso.”
Ainda assim, o que é que se deve fazer quando é noite e nos cruzamos com alguém? Não há respostas. É “bungee jumping”. Sem fio. “Aproximas-te da pessoa. É de noite e o silêncio… quando ele te cruza o olhar, pensas: ‘Olho ou não olho, o que é que é melhor?’ Nunca sabes, não há padrões. Nunca sabes o que é que vai na cabeça daqueles gajos. Em princípio não acontece nada. Mas, uns meses antes de lá ter chegado, houve um tipo que partiu tudo”.

O actor Miguel Borges passou 21 dias no hospital psiquiátrico Conde Ferreira 

Não aconteceu nada. Miguel está cá para partilhar a experiência, e, contas feitas, assegura que nunca dormiu tão bem. Medos para trás das costas, lugar para as surpresas. Prepare-se para a crueza das palavras.
“Aquilo é um lar, é um microcosmo perfeito. Nos primeiros dias tens um impacto enorme, ficas chocado e fascinado com aquelas mentes, com aqueles corpos, com os gajos de manhã em fila a tomar banho. Todos nus, com os corpos todos torcidos, a baba, as cabeças deformadas. É muito rico do ponto de vista de choque e de fascínio. É uma montanha russa de emoções”, recorda Miguel, acrescentando que, três ou quatro dias depois, o foco se começa a deslocar para os que estão ao lado. E quem é são eles? Uma pista, vestem-se de branco.
Amarrar é amar“Começamos a olhar para quem muda a fralda de cinco em cinco minutos, se for preciso, que dá de comer na boca, que mete o ‘outro’ na cama, que cose a cabeça ao tipo que está a bater com ela na parede, que o senta, que torna a sentá-lo, e que o amarra a uma cadeira se for preciso. Esta é uma cena violentíssima, mas não é… É apenas para ele não bater com a cabeça. E fica dois ou três dias amarrado. Essas pessoas são os enfermeiros, os técnicos e os auxiliares. São brilhantes, são fundamentais, são seres humanos muito especiais”, enfatiza.
Contudo, o tal microcosmo perfeito também tem que ver com o conceito de família. E aí são os de lá de dentro que o constroem. Sem laços de sangue, mas com as amarras da vivência. “Há os gajos mais capazes – há uns que são independentes, lavam-se sozinhos e fazem a barba – e há outros que não conseguem sequer comer. Uns ajudam os outros. É meio à bruta porque o corpo deles fica diferente devido à medicação. Tens o gajo a secar outro depois do banho. Dá cá o braço, mete o outro. E veste-o. Tudo com um amor bruto, com um amor eficaz. Agora é vestir, agora é comer. É brutalíssimo”, descreve Miguel, sentindo cada palavra que lhe sai da boca.
Vamos fazer uma pausa para Miguel explicar como ficou este hospital, este espaço e esta experiência gravados na memória. “É um bocadinho do mundo que é um manicómio, que é louco, que tem gajos aos gritos e às vezes têm de os agarrar e medicá-los (respira profundamente) … No entanto, é perfeito. É o sítio do mundo onde existe mais amor, mais amor. Ali é onde existe Deus. Se há filhos de Deus, é ali. São os protegidos de Deus. São crianças adultas. Se quiseres falar de algo superior, eles são misteriosos”.
As palavras saem em catadupa. É torrencial e parece que Miguel está de novo no Conde Ferreira. Não está, é um exagero. Porém vai lá muitas vezes desde que passou três semanas naquele espaço. Cada passagem pelo Porto é uma passagem pelo Conde Ferreira. Volta para ver os amigos. Às vezes nem precisa. O telemóvel faz esse trabalho. “Noutro dia liga-me o Alberto e diz-me: Actor Miguel, fala o actor Alberto”(risos) [Alberto é um dos “actores” de “Pára-me de Repente o Pensamento”].
Caminho de não retorno. Uma nova catedralVai lá voltar sempre. Porquê? Porquê essa visceralidade toda? “Sais de lá com a sensação de que dás tudo, mas que recebes muito mais do que o que dás. Criei ali relações que são para a vida, tornaram-se vitais e necessárias”, adianta.
Miguel sublinha ainda que tudo isto o enriqueceu muito. “Aprendi 47 pessoas!”, exclama. Todas muito diferentes. “Aprendi o tempo, a paciência, a escutar, a relativizar”. E avança mais fundo, pela epiderme, derme, e por aí fora. Sem parar. “A aprendizagem é celular, é do corpo, é física, não é racional. Para mim é difícil partilhar experiências. Não tenho esse hábito de relatar, porque as guardo muito no corpo”.
Todavia, para chegar a este ponto foi preciso saltar algumas barreiras. A maior de todas foi a comunicação, sem dúvida. “É mais difícil comunicar com eles, perdes-te para te poderes encontrar. Tens de voltar ao zero, de nascer de novo, de saber ouvir”. Há ainda os “horse jumps”, saltos de cavalo em tradução literal, que ilustram uma conversa que começa numa história maternal e acabava muito, muito longe do tema de partida.
Um delesComo Miguel os vê a eles, já temos uma aproximação. Contudo, como é que ele era visto pelos habitantes do Conde Ferreira? Não temos testemunhos em discurso directo de quem poderia fazer essa heteroavaliação. Vamos, então, à auto-avaliação do actor. “Muitos chegavam ao pé do Jorge (realizador) ou da Rosa (produtora) e diziam: ‘Ele está assim por causa da medicação.’ Muitos deles não perceberam que estava lá como actor, para eles estava em tratamento. Era um deles”, garante.
No Conde Ferreira afirma não ter encontrado nem mais nem menos do que cá fora. Apenas a intensidade muda. Por isso, não saiu de lá 21 dias. Rodemos então o botão do ‘intensómetro’ até ao máximo. “Sim, nunca saí. O que é que vinha cá fazer fora? Não se passa nada cá fora. E aquilo é tudo muito verdadeiro, é tudo muito… ver-da-dei-ro”, repete para ver se entendemos mesmo.
E prossegue de uma assentada. “Sentes-te muito rico, experiencias a tua humanidade. Tu ris e choras. Mas quando ris, ris, e quando choras, choras. Tudo o que tu fazes… é. Tudo tem uma importância brutal. É importante para perceber que estás vivo. Que tens um coração. O que importa são os outros. O que faz sentido é ajudar. É estar presente, é dar a mão. O toque a que não ligamos… E o toque fala muito”.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Identificado potente composto com mecanismo inédito contra a malária

Gates Foundation / Flickr
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Uma equipa internacional de cientistas identificou um novo e “potente” composto contra a malária, com um inédito mecanismo de ação.
O composto foi testado com sucesso em ratinhos e pode levar à criação de um medicamento contra a malária de dose única e a um custo inferior a um euro.
De acordo com o estudo publicado esta quinta-feira na revista Nature, um novo composto, designado pelos investigadores de ‘DDD107498‘, é capaz de atuar em distintas fases do ciclo de vida do Plasmodium falciparum, o parasita da malária.
A investigação está a ser liderada por Ian Gilbert, da Universidade de Dundee, no Reino Unido, com a participação de investigadores espanhóis, norte-americanos, australianos, suíços e holandeses.
O parasita da malária desenvolveu múltiplas resistências aos medicamentos e também começou a ser resistente ao atual medicamento recomendado pela Organização Mundial de Saúde, segundo os autores do estudo.
Segundo Francisco Javier Gamo, diretor da Unidade de Malária de GlaxoSmithKline, a novidade do composto é que é “muito potente e a sua principal característica é ser capaz de atuar nas distintas fases da vida do parasita, incluindo na transmissão da doença”.
O novo composto atua na fase hepática e na fase de reprodução do parasita.
Quando o mosquito portador do parasita pica uma pessoa, partes do parasita dirigem-se para o fígado, órgão onde começa a infeção.
Do fígado, o parasita multiplica-se e é capaz de proliferar de modo a que cada pessoa produza 10 mil novos parasitas.
“Se esta multiplicação não é controlada pode levar ao colapso dos vasos sanguíneos e as pessoas podem morrer”, detalhou o investigador.
O novo composto, acrescentou, evita também a transmissão do parasita a outro mosquito, que depois poderá picar outro ser humano.
O próximo passo da investigação, já a decorrer, é desenvolver um pré-clínico, uma fase em que vai experimentar a toxicidade do composto em humanos e a sua segurança.
Os autores do estudo consideram também que o futuro medicamento custará menos de um euro por tratamento, o que é importante porque a maioria das pessoas com malária vivem na pobreza.
/Lusa

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Notícias 

    Naturais

Propriedades de “Eliminação Inteligente de Células Cancerosas” da Cúrcuma Colocam a Quimioterapia e a Radiação no Chinelo


Propriedades de Eliminação Inteligente da Cúrcuma Colocam a Quimioterapia e a Radiação em DesonraO antigo tempero apimentado indiano ataca outra vez! Um novo estudo descobriu que o extrato da cúrcuma mata seletivamente e com segurança as células-tronco do câncer de uma forma que a químio e a radioterapia não podem.
Um novo estudo inovador publicado na revista Anticancer Research revela que um dos mais extensivamente pesquisados ​​e promissores compostos naturais do mundo para tratamento do câncer, o polifenol primário da antiga especiaria conhecida como curcumina, tem a capacidade de alvejar seletivamente as células-tronco do câncer, as quais são a raiz da malignidade do câncer, apesar de terem pouca ou nenhuma toxicidade sobre as células-tronco normais, as quais são essenciais para a regeneração de tecidos e longevidade.
Intitulado “A curcumina e as células estaminais do câncer: A curcumina tem efeitos assimétricos sobre o Câncer e as Células-Tronco normais“, o estudo descreve a vasta gama de mecanismos moleculares identificados atualmente pelos quais a curcumina ataca as células-tronco cancerosas (CSCs), que são a minoria da subpopulação de células de auto-renovação dentro de uma colônia do tumor, e que por si só são capazes de produzir todas as outras células dentro de um tumor, tornando-as mais letais de todas as células dentro da maioria, se não de todos os tipos de câncer. Devido as CSCs serem resistentes à quimioterapia, radiação, e podem até estar originando o aumento da capacidade de invasão por meio de intervenção cirúrgica, acredita-se que elas são amplamente responsáveis pela recorrência do tumor e do fracasso do tratamento convencional.
O estudo identificou os oito seguintes mecanismos moleculares pelos quais a curcumina ataca e mata as células tronco do câncer:
* A sub-regulação de interleucina-6 (IL-6): A IL-6 é uma citocina classificada como (uma potente biomolécula  liberada pelo sistema imunitário) e modula tanto a imunidade e quanto a inflamação. Sua super-expressão tem sido associada com a progressão da inflamação do câncer. A curcumina inibe a liberação de IL-6, que por sua vez impede a estimulação da CSC.
* A sub-regulação de interleucina-8 (IL-8): A IL-8, uma outra citocina, é liberada após a morte das células do tumor, estimulando subsequentemente as CSCs a recomporem o tumor e a resistir à quimioterapia. A curcumina inibe tanto direta como indiretamente a produção de IL-8.
* A sub-regulação de interleucina-1 (IL-1): A IL-1, uma família das citocinas, está envolvida na resposta à lesão e infecção, com a IL-1 β desempenhando um papel chave no crescimento de células cancerosas e estimulação da CSCs. A curcumina inibe a IL-1, tanto direta como indiretamente.
* Diminui a ligação entre CXCR1 e CXCR2: A CXCR1 e CXCR2 são proteínas expressas nas células, incluindo a CSCs, as quais respondem às citocinas acima mencionadas de um modo prejudicial. Se descobriu que a curcumina não só para bloqueou a liberação de citocinas, mas também sua ligação com estes dois alvos celulares.
* A modulação da via de sinalização Wnt: A via de sinalização Wnt regula uma grande variedade de processos durante o desenvolvimento embrionário, mas também é desreguladora em relação ao câncer. A curcumina foi encontrada por ter uma ação corretiva sobre a sinalização Wnt.
* Modulação da via de sinalização Notch: A via de sinalização Notch, também envolvida na embriogênese, desempenha um papel fundamental na regulação da diferenciação celular, proliferação e morte celular programada (apoptose), bem como o funcionamento de células tronco normais. A sinalização Notch anormal tem sido implicada em uma ampla gama de cânceres. Se descobriu que a curcumina suprime as células tumorais ao longo da sinalização Notch.
* Modulação das vias Hedgehog: Outra via envolvida na embriogênese, a via Hedgehog também regula a atividade das células-tronco normais. O funcionamento anormal desta via está implicado em uma ampla variedade de cânceres e na estimulação de CSCs e aumentos associados de recorrência do tumor após o tratamento convencional. A curcumina foi encontrada por inibir a via Hedgehog através de uma série de diferentes mecanismos.
* Modulação da via FAK/AKT/FOXo3A: Esta via desempenha um papel fundamental na regulação de células estaminais normais, com sinalização de estímulos de CSCs anormais, resultando mais uma vez em recorrência tumoral e resistência à quimioterapia. A curcumina foi encontrada em vários estudos por destruir as CSCs através da inibição desta via.
Como você pode ver através destes oito exemplos acima, a curcumina apresenta um nível bastante profundo de complexidade, modulando numerosas vias moleculares simultaneamente. A quimioterapia citotóxica convencional é incapaz de tal comportamento delicado e “inteligente”, uma vez que, preferencialmente, tem como alvo as células de reprodução rápida, danificando o seu DNA na fase vulnerável de mitose ​​da divisão celular, independentemente do fato de serem benignas, saudáveis ou células cancerosas. A citotoxicidade seletiva de curcumina, por outro lado, tem como alvo as células mais perigosas – as células-tronco do câncer – as quais deixam ilesas as células normais, conforme nós vamos agora aprender mais sobre isso, abaixo.
Curcumina e as células-tronco normais
A células-tronco normais (NSCs) são essenciais para a saúde, porque elas são responsáveis ​​por se diferenciarem das células normais que são necessárias para substituir as danificadas ou doentes. Se a curcumina foss matar as células normais, como a radiação e a quimioterapia, ela não representaria uma alternativa atraente a estes tratamentos. O estudo abordou este ponto:
A segurança da curcumina foi estabelecida há muito tempo, visto que tem sido utilizada por séculos como uma especiaria dietética. A questão surge por que a curcumina não parece ter os mesmos efeitos prejudiciais sobre as células-tronco normais (NSCs) como faz sobre as CSCs. Há várias razões possíveis da curcumina ter efeitos tóxicos sobre as CSCs, embora poupe as NSCs.”
O estudo ofereceu três explicações possíveis para o diferencial da curcumina ou sua citotoxicidade seletiva:
* As células malignas recebem muito mais curcumina do que as células normais.
* A curcumina altera o microambiente das células de tal maneira que é desfavorável para as CSCs e benéfico para as NSCs.
* A curcumina pode não atacar diretamente as CSCs, mas pode incentivá-las a se diferenciar em células não-letais, mais benignas.
Considerações finais
Este estudo acrescenta apoio crescente à ideia de que, as substâncias naturais seguras e testadas são superiores às sintéticas. Dada a evidência de que uma alternativa segura e eficaz pode já existir, a quimioterapia, a radioterapia e até mesmo cirurgia podem já não ser justificadas como o padrão de primeira linha de cuidados para o tratamento do câncer. De fato, um conjunto significativo de provas implicam agora que estes tratamentos agravam o prognóstico, e em alguns casos conduzem o enriquecimento de células-tronco tumorais em tumores. A radioterapia, por exemplo, tem sido encontrada por induzir as células-tronco cancerosas em células de câncer de mama, aumentando essencialmente sua malignidade e tumorigenicidade em 30 vezes. Este é quase o progresso quando se considera o papel que as CSCs desempenham, especialmente em termos de contribuição para o pós-tratamento de cânceres secundários.
A cúrcuma e seus componentes, é claro, não são fármacos aprovados pela FDA [ou ANVISA], e, por definição, a FDA não permitirá que uma substância natural ou sintética não aprovada, previna, trate, diagnostique ou cure uma doença. Isso significa que você não vai estar vendo ela ser oferecida por um oncologista como uma alternativa à quimioterapia ou radioterapia em um futuro próximo. Isto não significa, no entanto, que ela não funcione. Reunimos mais de 1500 citações do banco de dados bibliográficos da Biblioteca Nacional de Medicina MEDLINE, acessível através do site pubmed.gov, e que podem ser vistos em nosso banco de dados aqui: Pesquisa sobre a Cúrcuma (em inglês), mostrando que a curcumina e componentes relacionados possuem uma atividade significativa anti-câncer.  Eu também discuto este conceito em minha palestra, Food As Medicine Rebooted (em inglês), que você pode assistir abaixo:
Naturalmente, a questão não é esperar até que alguém tenha tal problema grave de saúde e que tomando doses heroicas de especiarias ou ervas torne-se o foco. É importante lembrar que as culturas antigas usavam especiarias como a cúrcuma, principalmente em doses culinárias, como parte de suas práticas alimentares. Estas quantidades menores, distribuídas principalmente como essências de alimentos integrais, provavelmente constituíram estratégias preventivas eficazes – talvez evitando a necessidade de uma intervenção radical heroica mais tarde na vida.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

ptjornal

 Paga salários acima da média, ginásio e férias para ver trabalhadores felizes

 
Um empresário de Penamacor paga aos seus funcionários uma média salarial que ronda os 1400 euros que, segundo o mesmo, é para fazer as pessoas felizes.
Armindo Borges, o ‘patrão’ da Ibersaco, uma empresa de Penamacor, distrito de Castelo Branco, que produz sacos em ráfia, gosta de ver as pessoas felizes, retribuindo-lhes esse gesto no salário e condições.
Nesta empresa tudo funciona como uma autêntica equipa e, mesmo o patrão, Armindo Borges, também dá uma ajudinha, sempre que necessário.
Os funcionários da Ibersaco, para além de ganharem muito acima da média nacional, podem disfrutar de um ginásio nas instalações da empresa, para além de umas férias anuais pagas pela mesma, algo exemplar em Portugal.
Armindo Borges pode ser visto como um dos melhores patrões em Portugal, face às condições e salários oferecidos na maioria das empresas.
Para este empresário, o esforço destas pessoas deve ser recompensado e, segundo o mesmo em declarações à SIC (ver vídeo), ‘o objetivo é que todos os trabalhadores possam vir a ter um salário semelhante a um de um ministro, porque não são inferiores a eles, nem em competência profissional, nem do ponto de vista intelectual’.
Para Armindo Borges, estes homens e mulheres não são vistos como colaborados, mas sim como uma família, é dessa forma que descreve os seus funcionários.

domingo, 7 de junho de 2015

VISÃO

Nepal: A vida tem de continuar

O alpinista João Garcia levou um grupo de turistas para o Nepal quatro dias após o terramoto - entende que privar os nepaleses da sua maior fonte de rendimento é condená-los a uma segunda catástrofe

 

Nepal: A vida tem de continuar
Luís Barra
Quando, a 25 de abril, um terramoto com uma magnitude de 7,8 fez estremecer o Nepal, matando oito mil pessoas, João Garcia estava de viagem marcada para daí a quatro dias com destino a Katmandu, para liderar uma expedição de trekking ao Vale do Khumbu, junto ao Evereste. Mas o alpinista de 47 anos (um dos mais experientes do mundo, o décimo a escalar os 14 picos acima dos oito mil metros) decidiu manter os planos, contra as recomendações de governos de todo o mundo. A tragédia não era razão para ficar em casa. Pelo contrário. Era motivo suplementar para fazer as malas e pôr-se a caminho.
"O Nepal é como Portugal: não tem petróleo. Vive do turismo", lembra João Garcia. "E esta época já se foi. É uma segunda catástrofe. Se as pessoas passarem a ir para outros destinos, estão a cavar um buraco ainda mais profundo, a tornar mais dolorosa a recuperação daquele povo." Ao chegar à capital nepalesa, acompanhado por mais nove portugueses, o montanhista encontrou uma cidade menos destruída do que esperava. "Noventa e oito por cento dos edifícios estavam bem.
O problema maior foi nas aldeias da região, com habitações rústicas construídas com pedra em cima de pedra." Aí sim, os efeitos do sismo revelaram-se catastróficos. "Algumas povoações ficaram arrasadas, incluindo a que servia o campo-base do Evereste; noutra, 200 casas ficaram debaixo do gelo que se desprendeu de uma encosta."
'Havia equipas de resgate que não sabiam para onde ir'
João Garcia e os companheiros caminharam por Khumbu, quase sozinhos. Com mais de 30 carimbos do Nepal no passaporte, oalpinista nunca tinha atravessado o vale sem se cruzar com outros caminhantes, ou helicópteros com turistas. Ao fim de duas semanas (que incluíram uma forte réplica do sismo), João despediu-se do resto do grupo, que regressou a Portugal, e ficou os sete dias seguintes em Katmandu a dividir sacas de arroz, lentilhas e bolachas, e a distribuir pregos, arame, oleados, sopa e pacotes de chá.
Naquele momento, toda a ajuda era pouca, para compensar alguma descoordenação humanitária. "Havia equipas de resgate que não sabiam para onde ir, decisões do governo que demoravam tempo a chegar." Por agora, a carência maior é material de construção vem aí a monção. "Vai ser duro. Junho, julho, agosto e uma parte de setembro é sempre a chover, e as pessoas precisam de um sítio seco para passarem a noite. Mais tarde, no outono, é que se vão preocupar em fazer uma casa definitiva para o inverno." Até lá, a população, também aproveitando o que sobra das habitações, tem erguido nos quintais tendas ou barracas com leves telhados de zinco.
"Ainda se nota o stresse pós-traumático: ninguém quer dormir dentro de uma casa." O auxílio de João Garcia ao Nepal não terminou quando voltou para casa o montanhista organizou um jantar de angariação de fundos no restaurante nepalês junto à Igreja de São João de Brito, em Lisboa, para domingo, 31 de maio (inscrições para: ines@papa-leguas.com). "São 20 euros por jantar, e 14 vão para a ONG Khumbila Conservation Trust. É o suficiente para alimentar uma criança na escola durante três ou quatro dias, ou pagar 20% de uma bateria solar para duas famílias."VISÃO

sábado, 6 de junho de 2015

Descoberta reacção química que permite tratamento de cancro com infravermelhos

Um estudo desenvolvido pelo Instituto Químico de Sarria (IQS), em Espanha, abre a porta à possibilidade de diagnosticar e tratar o cancro com luz infravermelha.
O estudo, publicado na revista Chemical Communications, da Sociedade Real de Química, em Londres, foi realizado por uma equipa constituída por Santi Nonell e Oriol Planas, investigadores do IQS, e pelo especialista em síntese orgânica Thibault Gallavardin.
A investigação descobriu uma nova reação química em que uma sonda fluorescente muda de cor quando ligada a um anticorpo e a outras biomoléculas de interesse médico, bem como a uma grande variedade de nanopartículas.
A marcação de anticorpos, biomoléculas e nanopartículas com sondas fluorescentes é uma técnica usada em ensaios clínicos e em diagnóstico por imagem.
Recentemente, tem começado também a ser usada para guiar intervenções cirúrgicas em tempo real, mas um dos principais problemas das sondas atualmente disponíveis é que a sua emissão se encontra na região visível do espectro e sobrepõe-se à autofluorescência própria dos tecidos biológicos.