sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Novo tratamento do Alzheimer restaura totalmente a função da memória

Se uma pessoa tem a doença de Alzheimer, isso é geralmente o resultado de uma acumulação de dois tipos de lesões – placas amilóides e emaranhados neurofibrilares. As placas amilóides ficam entre os neurônios e criam aglomerados densos de moléculas de beta-amilóide.
Os emaranhados neurofibrilares são encontrados no interior dos neurónios do cérebro, e são causados por proteínas Tau defeituosas que se aglomeram numa massa espessa e insolúvel. Isso faz com que pequenos filamentos chamados microtúbulos fiquem torcidos, perturbando o transporte de materiais essenciais, como nutrientes e organelas.
Como não temos qualquer tipo de vacina ou medida preventiva para a doença de Alzheimer – uma doença que afeta 50 milhões de pessoas em todo o mundo – tem havido uma corrida para descobrir a melhor forma de tratá-la, começando com a forma de limpar as proteínas beta-amilóide e Tau defeituosas do cérebro dos pacientes.
Agora, uma equipa do Instituto do Cérebro de Queensland, da Universidade de Queensland, desenvolveu uma solução bastante promissora. Publicando na Science Translational Medicine, a equipa descreve a técnica como a utilização de um determinado tipo de ultra-som chamado de ultra-som de foco terapêutico, que envia feixes feixes de ondas sonoras para o tecido cerebral de forma não invasiva.
Por oscilarem de forma super-rápida, estas ondas sonoras são capazes de abrir suavemente a barreira hemato-encefálica, que é uma camada que protege o cérebro contra bactérias, e estimular as células microgliais do cérebro a moverem-se. As células da microglila são basicamente resíduos de remoção de células, sendo capazes de limpar os aglomerados de beta-amilóide tóxicos.
Os pesquisadores relataram um restauro total das memórias em 75 por cento dos ratos que serviram de cobaias para os testes, havendo zero danos ao tecido cerebral circundante. Eles descobriram que os ratos tratados apresentavam melhor desempenho em três tarefas de memória – um labirinto, um teste para levá-los a reconhecer novos objetos e um para levá-los a relembrar lugares que deviam evitar.


quinta-feira, 20 de agosto de 2015


Desflorestação na Amazónia caiu 82% em dez anos

Este foi um dos dados obtidos pelo Projeto de Monitorização do Desmatamento na Amazónia Legal (Prodes), numa pesquisa feita pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

De acordo com o estudo, de 2004 a 2014, a taxa anual de desflorestação da Amazónia, que abrange os estados do Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, caiu de 27.772 km² para 5.012 km².
O levantamento foi feito com base em mais de 200 imagens de satélite e mostrou ainda que, de agosto de 2013 a julho de 2014, houve uma queda de 15% na desflorestação da região em relação ao período anterior, o que equivale a 5.891 km². Este é o segundo menor índice da série histórica iniciada em 1988.
De acordo com a Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, os resultados devem-se às políticas públicas de combate à desflorestação que têm sido desenvolvidas pelo governo e a expectativa é a de continuar esta redução, aumentando a parceria com os estados.
“Tem sido feito um esforço muito grande no combate à ilegalidade, assim como um esforço de grandes políticas públicas de regularização e destinação de terras”.
“Há também o esforço da regularização dos assentamentos rurais e acho que existe também uma maior consciencialização. Agora temos de evoluir para que os estados estejam envolvidos”, afirmou a ministra, citada pela Sputnik.
O Ministro da Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo, está satisfeito com os números e diz que estes dados só mostram o êxito da política ambiental que está a ser aplicada no Brasil.
Relembra ainda a conversa que teve, durante uma visita ao Museu Espacial da Rússia, com um astronauta sobre o que ele via do espaço.
“Como é que vê a Rússia? Ele disse que tem uma área muito grande e escura que é desabitada. Como é que você vê a Europa? Ele disse que com muitos pontos de luz que correspondem ao grande número de cidades. E como você vê os Estados Unidos? Ele disse que com muitas linhas de luz, que correspondem ao grande número de rodovias. E como você vê o Brasil? Ele disse: com muita mata e muito rio. É o que nós vemos lá do espaço na região da Amazónia”.
Segundo Aldo Rebelo, o estado do Amazonas, com 1,6 milhão m², tem um território 3 vezes maior do que, por exemplo, a França, e ainda possui entre 98% e 99% de vegetação nativa, o que reflete o quanto foi preservado.
“Toda a área ocupada da Amazónia para agricultura, pecuária, cidades, infraestrutura, estradas, hidroelétricas, varia entre 1% e 2 % do total da área do estado do Amazonas. Então, de facto, é ainda, uma área de grande preservação”.
De acordo com o Prodes, os estados que mais reduziram as taxas de desflorestação na Amazónia foram o Maranhão (36%), Tocantins (32%) e Rondônia (27%).
Por outro lado, foram verificados aumentos no Acre (40%), no Amapá (35%) e em Roraima (29%).
ZAP / Sputnik

segunda-feira, 17 de agosto de 2015




A revista inglesa Gramophone acaba de divulgar as nomeações deste ano para os prémios que distinguem os melhores trabalhos discográficos de música clássica. A atribuir em Setembro, estes galardões são os mais importantes na área, sendo equivalentes aos Óscares para o cinema. Na lista, estão duas obras portuguesas: as gravações de dois concertos de Beethoven, por Maria João Pires, e de uma ópera de Richard Strauss, pelo Coro Gulbenkian.

A pianista portuguesa está na corrida ao Prémio Gramophone na categoria Concerto pela gravação (em estreia na etiqueta Onyx, com a qual assinou em 2014) dos Concertos n.º 3 e n.º 4, de Beethoven, com a Orquestra Sinfónica da Rádio Sueca, dirigida por Daniel Harding.

O Coro Gulbenkian é candidato na categoria de Ópera, pois integrou a produção de Elektra, de Richard Strauss, no Festival de Arte Lírica de Aix-en-Provence de 2013, cujo lançamento em DVD (editado pela Bel Air Classiques) se encontra na lista dos seis nomeados.
 
in revista SÁBADO

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Oftalmologista português distinguido nos Estados Unidos


Dois trabalhos, na área da cirurgia refrativa e de catarata, do oftalmologista e investigador Eduardo Marques foram distinguidos pela Sociedade Americana de Cirurgia Refrativa e de Cataratas (ASCRS). As distinções ocorreram durante o congresso da ASCRS, em San Diego, na Califórnia, que elege anualmente os melhores trabalhos.
créditos: AFP
A ASCRS distinguiu os trabalhos de Eduardo Marques na área do tratamento cirúrgico da presbiopia (dificuldade de visão para perto) e das cataratas com lentes intraoculares.
No primeiro caso tratou-se da apresentação dos resultados de um estudo clínico com lentes intraoculares multifocais tóricas (corrigem visão para longe, perto e astigmatismo) no tratamento da catarata. O segundo trabalho premiado teve como base a apresentação de resultados de um outro estudo clínico com um novo tipo de lente intraocular, denominado foco alongado, que promete revolucionar o tratamento da presbiopia com lentes intraoculares.
"É com grande satisfação que, pela quarta vez, vejo o nosso trabalho na cirurgia da presbiopia e das cataratas com lentes intraoculares ser distinguido nos Estados Unidos. É o reconhecimento de muitos anos do trabalho de uma equipa, com o objetivo de proporcionar aos doentes com presbiopia e/ou cataratas melhor qualidade de visão e maior independência de óculos, ou seja, uma melhor qualidade de vida", revela o médico Eduardo Marques, coordenador do Centro de Educação e Investigação do Hospital Lusíadas Lisboa.
E acrescenta: "estas distinções são prestigiantes e importantes para o currículo mas sobretudo porque, ao reconhecer internacionalmente o trabalho de um cirurgião e de uma equipa, nos estimulam a continuar e avançar com o progresso científico. Em anos anteriores, já tinha sido distinguido duas vezes com o mesmo tipo de prémio por outros trabalhos. Este ano tive o privilégio de ser escolhido por dois trabalhos diferentes o que, no mesmo ano, é bastante raro ou mesmo inédito".
No congresso participaram os maiores nomes da cirurgia refrativa e de cataratas a nível mundial e, nas sessões em que os prémios foram atribuídos concorreram nomes como o de Robert Cionni, presidente da ASCRS, ou Gerd Auffhard de Heidelberg, investigador europeu que mais publicações tem na área da cirurgia refrativa e de catarata. As distinções atribuídas a Eduardo Marques e as respetivas apresentações foram publicadas na revista EyeWorld e na página oficial da ASCRS.
O Congresso da Sociedade Americana de Cirurgia Refrativa e de Cataratas reúne anualmente cerca de 7500 cirurgiões refrativos e de cataratas do mundo inteiro. Conjuntamente com o Congresso anual da sua congénere europeia, com quem partilha a mais importante publicação científica desta área cirúrgica, constitui o mais importante evento mundial na área da cirurgia refrativa e de cataratas

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Casal turco partilha festa de casamento com 4.000 refugiados

Casal reúne dinheiro que recebeu de familiares e troca a festa de casamento pela oferta de uma grande refeição a refugiados sírios.
Casal turco partilha festa de casamento com 4.000 refugiados
Um casal turco convidou 4.000 refugiados para festejar o seu casamento.
Fethullah Üzümcüoğlu e Esra Polat decidiram partilhar a alegria do dia do seu casamento a alimentar 4.000 refugiados provenientes da Síria. Festa que teve lugar na cidade turca de Kilis.
Inicialmente a noiva mostrou-se reticente, mas acabou por se render à ideia. “Eu fiquei chocada quando o Fethullah me contou a ideia mas depois de algumas palavras fiquei convencida. Foi uma experiência maravilhosa. Estou feliz por ter tido esta oportunidade de partilhar a nossa refeição de casamento com pessoas que realmente precisam”, confidenciou Esra Polat ao jornal inglês “The Telegraph”.
Fethullah Üzümcüoğlu, o noivo, não se arrependeu e ficou bastante feliz pela forma como deu o primeiro passo ao lado de Esra. "Ver a felicidade nos olhos dos filhos dos refugiados sírios é impagável. Começámos a nossa jornada para a felicidade a fazer os outros felizes e isso é uma grande sensação", disse ele ao jornal.
De acordo com o jornal britânico, a ideia original partiu do pai do noivo, que manifestou ao jornal turco “Serhat Kilis” a esperança de que outros façam o mesmo e partilhem as celebrações do casamento com os seus irmão e irmãs da Síria.
A Turquia acolheu quase dois milhões de refugiados desde o início da guerra civil na Síria. Só na cidade de Kilis existem 4.000, que recebem ajuda da organização turca Kimse Yok Mu.

sábado, 1 de agosto de 2015

NOTÍCIAS AO MINUTO

Terapia de cancro descoberta em Coimbra está a revelar-se eficaz

Uma molécula para terapia inovadora no tratamento de vários tipos de cancro, patenteada pela Universidade de Coimbra (UC), está a revelar, de acordo com os estudos efetuados, a "eficácia desejada", anunciou hoje esta instituição.

Lusa
País Universidade 10:31 - 23/07/15
"Vários estudos e experiências realizadas em ratinhos, entre 2011 e 2014, provaram a eficácia da molécula Redaporfin", descoberta na UC, para o tratamento de diversos tipos de cancro, "através de terapia fotodinâmica" (tratamento inovador que "permite eliminar células cancerígenas de forma precisa"), afirma a UC numa nota hoje divulgada.
De acordo com os ensaios realizados, "86% dos ratinhos com tumores diversos que foram tratados com esta tecnologia, seguindo exigentes protocolos de segurança, ficaram curados", salienta a mesma nota, adiantando que "não se observaram efeitos secundários, como acontece com os tratamentos convencionais", como a quimioterapia.
O estudo, que acaba de ser publicado no European Journal of Cancer, demonstrou igualmente uma "taxa de reincidência da doença muitíssimo baixa", revelando a eficácia do fármaco.
Os testes efetuados "previram com rigor quando é que a resposta ao tratamento iria surgir, com que doses e em que circunstâncias seriam obtidos os efeitos terapêuticos no doente", salienta o diretor da química medicinal deste projeto, Luís Arnaut.
As previsões estão a ser "confirmadas nos ensaios clínicos em curso", acrescenta o investigador da UC.
Esta confirmação é "excecional" porque, "na grande maioria dos estudos, muito do conhecimento adquirido nos testes em animais não é confirmado nos humanos", mas "neste caso foi possível chegar à dose adequada para obter resultado terapêutico nos doentes sem efeitos adversos, como previsto", explica Luís Arnaut.
Estão a decorrer ensaios com doentes oncológicos em hospitais portugueses até ao final deste ano e os resultados já conhecidos e validados cientificamente "fundamentam a expectativa" de que a terapia fotodinâmica com a molécula Redaporfin se revele "mais eficaz que as terapêuticas convencionais", admite Luís Arnaut.
Grande parte do percurso está feita e o primeiro fármaco português para tratamentos oncológicos poderá estar no mercado "dentro de três a quatro anos", acredita o investigador e catedrático do Departamento de Química da UC.
Iniciada há mais de uma década, a investigação envolve perto de quatro dezenas de investigadores dos grupos de Luís Arnaut e de Mariette Pereira, da UC, da empresa Luzitin SA (criada para desenvolver este projeto), e de uma equipa de médicos do Instituto Português de Oncologia do Porto.
O aspeto mais inovador do tratamento fotodinâmico com Redaporfin reside no facto de "estimular o sistema imunitário do paciente, ou seja, a terapia limita o processo de metastização do tumor", isto é, "o sistema imunitário fica alerta e ativa a proteção antitumoral contra o mesmo tipo de células cancerígenas noutras partes do organismo", conclui Luís Arnaut.
Fundada, em 2010, pela Bluepharma e inventores da Redaporfin, a Luzitin -- que realizou os estudos de pré-clínicos para obter autorização para a realização de ensaios clínicos com a Redaporfin -- está, desde 2014, a realizar em Portugal um ensaio clínico de fase I/II com doentes de cancro avançado da cabeça e pescoço.
A Luzitin SA é financiada pela farmacêutica de Coimbra Bluepharma e pela sociedade de capital de risco Portugal Ventures.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Nevzat, o patrão que vendeu a empresa e deu €216 mil a cada funcionário

Nevzat Aydin fundou a empresa em 2000
Johannes Simon/ Getty Images

“Alguns choraram, outros gritaram. Houve muitas emoções. As pessoas [agora] podem comprar casas, carros...”

Nevzat Aydin decidiu vender a sua Yemeksepeti, uma empresa turca de encomendas online e entrega de refeições ao domicílio, a uma companhia alemã do mesmo ramo, a Delivery Hero. Segundo a CNN, o negócio foi fechado por 530 milhões de euros. Mas a notícia não é esta, ainda que o negócio seja financeiramente relevante. O que tem feito de Aydin notícia é o facto de ter decidido distribuir 25 milhões por 114 trabalhadores.
Em média, cada empregado recebeu 216 mil euros. No entanto, este valor varia consoante a produtividade e o “futuro potencial na empresa” de cada um. Só os trabalhadores com mais de dois anos de contrato é que foram elegíveis para o bónus.
Para Nevzat Aydin, cofundador da empresa, o sucesso da Yemeksepeti “não aconteceu do dia para noite e muitas pessoas participaram nesta viagem com o seu trabalho e talento”. “Alguns choraram, outros gritaram e houve ainda quem escrevesse cartas de agradecimento. Houve muitas emoções, porque mudámos a vida das pessoas. As pessoas [agora] podem comprar casas, carros... Podem fazer imediatamente algo que nunca conseguiriam com um ordenado de 900 ou 1500 euros. Foi uma coisa boa. Gostaria de ter a capacidade de lhes dar mais”, contou Aydin.
A Yemeksepeti foi fundada há 15 anos e entrega mensalmente mais de três milhões de refeições e opera nos Emirados Árabes Arábia Saudita, Líbano, Omã, Qatar, Jordânia, Jordânia e, claro, na Turquia. O conceito da empresa passa pela encomenda de refeições online que depois são entregues no local e à hora escolhida pelo cliente.
Com a venda da Yemeksepeti, Nevzat Aydin mantém o cargo de diretor-executivo e passa também a ocupar uma cadeira no painel da administração da Delivery Hero.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

PUBLICO

A fórmula certa para recuperar solos pobres foi criada por portugueses

Vinte variedades de plantas dão nova vida a solos. As Pastagens Semeadas Biodiversas sugam mais dióxido de carbono do ar, enriquecem a terra e alimentam o gado. Projecto ganhou prémio europeu ambiental
O montado é um ecossistema excelente para a plantação das pastagens biodiversas, que tornam os sobreiros mais saudáveis terraprima
Os agricultores precisam de ver para crer, diz-nos Tiago Domingos. O professor de engenharia ambiental do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e director da empresa de serviços ambientais Terraprima conseguiu que mil agricultores lhe dessem ouvidos. Hoje, em Portugal, há muitos terrenos onde as pastagens biodiversas crescem. A maioria está nos montados alentejanos, fortalecendo os sobreiros e prestando um serviço ambiental a todos.
Estas pastagens capturam uma quantidade anormal de dióxido de carbono, evitando a acumulação de parte do gás que mais contribui para o efeito de estufa, responsável pelo aquecimento global. Essa foi uma das razões para o projecto da Terraprima Pastagens Semeadas Biodiversas ganhar o concurso da Comissão Europeia "Um Mundo Que me Agrada", entre os 269 projectos concorrentes.
Sempre que Tiago Domingos fala sobre este projecto, o nome de David Crespo surge imediatamente. No púlpito do Teatro Real Dinamarquês, em Copenhaga, quando na quinta-feira à noite lhe foi atribuído o prémio, voltou a contar a história do engenheiro agrónomo que, na década de 1960, começou a pensar nas pastagens biodiversas.
David Crespo é hoje director do programa de investigação e desenvolvimento da Fertiprado, a empresa que fundou em 1990. Em 1966 trabalhava na Estação Nacional de Melhoramento de Plantas. Inspirado pelas pastagens que os australianos semeavam, onde utilizavam duas ou três variedades de plantas, o engenheiro começou a pensar como poderia resgatar os solos pobres portugueses.
"Em Portugal temos imensos solos diferentes. No mesmo hectare, cada pedaço de terra muda", explica Tiago Domingos. Os topos dos montes são mais secos e têm menos solo, a terra debaixo das copas das árvores é mais húmida. A geologia, fundamental na natureza dos solos, é variada no território português.
David Crespo pensou numa solução holística. O engenheiro agrícola desenvolveu uma fórmula de 20 variedades diferentes de plantas que, quando semeadas, respondem localmente. Algumas tornam-se mais dominantes consoante as condições da terra onde crescem.
O cientista escolheu espécies de leguminosas e de gramíneas. As primeiras, como o trevo-subterrâneo, têm uma relação simbiótica com bactérias que se desenvolvem em nódulos nas raízes. Estas bactérias captam azoto do ar, metabolizam e disponibilizam o azoto à planta. Desta forma, este nutriente entra no ecossistema sem ser necessário usar adubos, é depois absorvido pelas gramíneas, que se tornam uma parte importante do pasto dos animais.
Esta mistura tem uma série de benefícios. Como as espécies são anuais, resistem ao clima mediterrânico, produzem sementes e criam no solo um banco de sementes que pode manter a pastagem por décadas. As raízes das plantas, que também morrem anualmente, alimentam o solo com nutrientes.
Passados uns anos, estes solos triplicam a matéria orgânica. As pastagens alimentam mais cabeças de gado e captam mais dióxido de carbono. Também se verificou que os sobreiros que crescem nestas pastagens são mais saudáveis, e o solo é mais húmido, resistindo à seca.
Estes benefícios foram bem quantificados na última década pela equipa de Tiago Domingos. Foi assim que se descobriu que as pastagens biodiversas captam cinco toneladas de dióxido de carbono por ano por hectare.
A partir de 2008, a Terraprima obteve financiamento do Fundo Português de Carbono (FPM) para três projectos que envolveram mil agricultores. Estes tinham de comprar sementes para a pastagem, de aceitar cuidar delas segundo as regras da Terraprima e recebiam o apoio dos seus técnicos. Desta maneira, podiam ganhar entre 150 e 130 euros por hectare, pelo dióxido de carbono que as suas pastagens captam. É uma ajuda que seduz os agricultores, mas o trabalho só compensa a longo prazo, com todos os outros benefícios.
Os projectos do FPM já terminaram, mas Tiago Domingos espera envolver empresas para assim compensarem as suas emissões e a indústria alimentar para que os alimentos produzidos nestas pastagens tenham uma marca distintiva. O prémio europeu "pode ajudar a expandir este sistema dentro de Portugal e em muitos países".

terça-feira, 28 de julho de 2015

Homens arriscam suas vidas para salvar escravas sexuais do Estado Islâmico

Nos piores momentos da humanidade surgem os maiores heróis. A máxima está sendo colocada em prática no Oriente Médio, em parte tomado pelos jihadistas do Estado Islâmico. Por lá, homens se juntaram e formaram grupos de resistência que tem como objetivo salvar mulheres tratadas como escravas sexuais pelos terroristas.
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De acordo com o Daily Mail, essas mulheres viviam escravizadas pelo EI, sendo vítimas diárias de estupros, espancamentos, açoitamentos e até apedrejamentos. Em alguns casos, após o salvamento, essas mulheres foram flagradas sendo carregadas por seus salvadores, tamanha a dificuldade que tinham para andar.
O objetivo do grupo é bastante simples: resgatar essas mulheres na surdina e levá-las escondidas até a fronteira com o Iraque, muitas vezes atravessando boa parte da Síria. O destino final costuma ser qualquer território para refugiados que esteja longe do controle do EI. As fugitivas têm pelas consciência de que, se capturadas novamente, serão torturadas até a morte.
Entre as mulheres recuperadas estão idosas e crianças. Muitas delas, afirmam os ativistas responsáveis pelo resgate, precisam de acompanhamento psicológico após o retorno para superar os horrores vividos. Para o bem da humanidade, o grupo de resgate tem atraído cada vez mais membros e, graças a isso, muitas mulheres estão conhecendo novamente o gosto da liberdade.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Como o cinema chegou a crianças de aldeias africanas pelas mãos de um português

O português João Meirinhos anda pelas aldeias mais recônditas de África e Ásia a projetar filmes para crianças. Muitas assustam-se com os dragões das animações

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Ainda faltam três mil quilómetros para chegarem a Ulan Bator, a capital da Mongólia, e o termómetro do camião já se aproximou dos 40 graus. João Meirinhos atende a chamada da VISÃO enquanto percorre os arredores de Omsk, na Sibéria, numa estrada longa e sem história, deserta de humanidade. A bordo do camião 4x4 Magirus Dentz, de 1975, que já foi carro de bombeiros na Alemanha e transportou aviões de salvamento para ralis no deserto do Saara, além do antropologista visual nascido em Lisboa, há 30 anos, viajam os italianos Davide, músico e motorista, e Francesca, fotógrafa e clown, que tem tatuado no ombro "o essencial é invisível aos olhos", uma citação de O Principezinho, de Saint-Exupéry.
"Nas últimas três semanas temos guiado cerca de dez horas por dia, entre 400 e 500, no máximo, porque as estradas têm muitos buracos. Ontem por exemplo, demorámos duas horas para fazer 60 km", conta João para quem foi "interessante" falar em português outra vez. Desde 2009 está habituado a pensar em italiano, falar espanhol e francês e pesquisar em inglês na internet. Os outros cinco voluntários seguem noutros dois camiões. Trata-se de Francisca, animadora social e relações públicas de Espanha, e dos franceses Erwan, performer de circo, Lola, editora de vídeo que trata dos contactos com os orfanatos e escolas, Eva, coordenadora do projeto e habituada a trabalhar na área da educação, e Thomas, realizador e coordenador.
Andam na estrada desde abril e já fizeram 30 sessões de cinema em aldeias no meio de nenhures: 15 na Roménia, 5 na Bulgária e na Turquia, 4 na Geórgia e uma na Rússia. "A globalização é o tema principal dos documentários não verbais que mostramos [Home, Baraka ou Microcosmos], cujos direitos de exibição nos foram doados pelos realizadores. Foi a pôr gasolina no gerador durante uma projeção que nos apercebemos que era uma contradição passar filmes sobre ecologia e depois utilizar gasolina para os mostrar. Comprámos mais painéis solares e baterias e agora somos independentes nesse sentido", esclarece João.
Foi precisamente o desperdício de dinheiro de uma sociedade consumista que fez com que João Meirinhos, ao terminar o curso de Ciências da Comunicação na variante de Cinema e Audiovisual, se interessasse por voluntariado. Ainda estagiou numa produtora de cinema publicitário, mas em 2009 fez-se à estrada quando um dos seus companheiros de Erasmus, em Itália, o desafiou: "Vamos fazer cinema com as crianças em África." Mais tarde, criaram uma joint-venture entre os franceses da Lèzards Migrateurs e os italianos da ONG Bambini Nel Deserto. Em 2011, passou por 22 países em dois continentes. Em 2012 voltou a Manchester para um mestrado em Antropologia Visual. "Sou um filho dos ideais de Abril.
Fui educado rodeado de cultura e arte como princípios básicos para o desenvolvimento. E isso nunca mudará. Esta iniciativa claramente não é um emprego, mas sem dúvida que dá muito trabalho."
Aventuras 'on the road'
Para os oito voluntários, todas estas viagens são uma troca inesperada. "É preciso não recear o acaso mas aproveitá-lo. Até agora os melhores momentos foram sempre quando a nossa aparição é uma surpresa, para ambas as partes", partilha João Meirinhos. Tanto em África como na Ásia Central, o facto de serem europeus é imediatamente associado a riqueza. "No Saara usávamos calendários pornográficos e bolas de futebol como moeda de troca para que nos deixassem em paz. Pormenores como bandeiras de cada país, uma foto de Meca ou do presidente Putine a cumprimentar Berlusconi podem evitar problemas. É útil conhecer o vocabulário básico e manter a calma", explica o português.
No meio de tantas aventuras, já teve miúdos a mastigar os restos dos seus ossos de frango; percebeu que um preservativo custa mais que uma prostituta; teve nove furos numa semana devido aos 50 graus do asfalto; já lhe ofereceram uma criança, para trazê-la para a Europa, mas fizeram uma coleta entre todos e por 50 euros ela pôde ir, pela primeira vez, à escola, durante um ano; e, por fim, o grupo decidiu "viver como um burkinabé", com menos de um euro por dia. "Acho que nem duas semanas aguentei a comer sempre a mesma coisa, arroz com molho de amendoim e um pouco de gordura de carne... O Davide foi para o hospital com paludismo. Onde a pobreza é mais extrema é onde ninguém já profere uma queixa", descreve.
Durante as sessões de cinema, são inúmeras as reações dos mais pequenos. No Burkina Faso, por exemplo, gritam quando veem um dragão numa das animações. Projetar a imagem de um camião que passa por cima de uma câmara no chão é meio caminho andado para todos fugirem, pois o efeito 3D fá-los pensar que vão ser atropelados. Na caravana há tempo para tudo, desde criar uma estação de painéis solares para dar energia a uma bomba de água num oásis no sul de Marrocos até organizar uma oficina de mecânica para "rapazes de rua" aprenderem um ofício. Mas nem tudo é um mar de rosas.
João e os sete companheiros já apanharam alguns sustos. O momento de maior stresse deu-se ao atravessarem a fronteira entre Marrocos e a Mauritânia. Foram atraídos a uma armadilha de areia e o camião ficou atolado.
"Surgiram mais de vinte homens aos gritos, em árabe, no meio do nada. Queriam 300 euros para nos ajudarem a desenterrar o camião. Conseguimos fechar negócio por 150 e passámos umas boas três horas até sair dali", relembra João. Em Bamako, capital do Mali, foram raptados por uma espécie de "Unidade de Bons Costumes Islâmica", depois de um dos amigos de João Meirinhos urinar na rua. "Saem uns homens encapuçados com metralhadoras de dentro de um jipe e levam-nos. Quando começaram a 'pescar' mais gente pela rua comecei a perceber o que se passava. Procuravam pessoas 'fora de conduta'. Queriam 7 000 SEFA (8 euros). Acabaram por aceitar os 5 000 que tinha no bolso e ainda nos deram uma boleiazinha para mais perto do acampamento." Se a campanha de crowdfunding chegar a bom porto (indiegogo.com/projects/solar-powered-cinema-mission-mongolia#/ story), conseguirão angariar 3 600 euros até 2 de agosto, e levar a sua sala de cinema itinerante para a China e para a Índia. Ainda há muitas crianças espalhadas pelo mundo à espera de ver cinema pela primeira vez.