A viagem tem um lema - Famílias Como as Nossas - e a
partida está marcada para os jardins fronteiros ao Palácio de Belém, em
Lisboa. Entre os muitos autocarros de turismo que ali estacionam, há de
arranjar-se espaço para os carros que se juntarem aos de Nuno Félix e
Pedro Policarpo, dois amigos, cada um com quatro filhos, que decidiram
ajudar refugiados a chegar rapidamente a Portugal.
Nuno tem 38 anos e fez carreira na área da Comunicação Social, antes
de transformar um hóbi (o futebol) num trabalho: representa um clube
alemão, o Colónia, nos mercados que falam Português e Espanhol. Pedro,
mais novo um ano, licenciou-se em Direito e em Economia, e é consultor
numa empresa. Juntos, estão dispostos a correr alguns riscos e acreditam
que podem fazer a diferença, por pequena que seja.
"Neste momento, em Portugal, há centros de acolhimento prontos para
acolherem refugiados. Estão prontos hoje, já estavam prontos ontem.
Fazer depender a ajuda de um conjunto de burocracias não faz sentido
nenhum. Se o processo da vinda dos refugiados para Portugal for
acelerado dois ou três dias, já valeu a pena", admite Nuno, cujo
testemunho recolhemos aqui em baixo.
A ideia
"Tanto eu como o Pedro temos uma abordagem pragmática relativamente à
vida: se tem de ser feito, é para fazer. Trocámos umas impressões sobre
o que está a acontecer e, vendo a energia que tem sido colocada nas
respostas, pensámos: isto é para ir lá e buscar uns miúdos.
Temos quatro filhos cada um e sabemos que, a partir dos três, é
sempre a somar. Podem vir mais. Todos disseram que éramos doidos quando
decidimos ter famílias numerosas e cá estamos. Dentro da nossa
capacidade e das nossas possibilidades, queremos fazer algo que seja
correto.
O único 'mas' é que temos a consciência de que não vamos resolver o
problema. Agora, se toda a gente fizesse isto, resolveríamos..."
A urgência
"A opinião pública encontra-se muito dividida, e a fação de quem
está contra a vinda dos refugiados é muito mais ruidosa. Não se vê um
movimento favorável à ajuda, não se vê uma relação direta entre a
urgência da necessidade e a urgência da resposta.
Alimenta-se um certo medo e o egoísmo. Está cada um a olhar para dentro.
Muitas vezes é preciso um arrancador de palmas. Nós só queremos
começar a bater palmas. Se não vier mais ninguém, continuaremos a
aplaudir."
O exemplo
"Fazer isto implica algum risco. Pode acontecer alguma coisa que não
estejamos à espera. Os amigos dizem: 'Atenção, vocês têm filhos...' Mas
se eu não os tivesse, não sentiria o que sinto. Não sentiria nem a
emoção nem a obrigação de fazer alguma coisa.
Não tenho a certeza de que no futuro dos meus filhos eles não serão
obrigados a fazer o que as famílias sírias estão a fazer agora. Se um
dia eles tiverem de pedir ajuda à Síria, quero que o país lhes abra a
porta.
As pessoas cada vez mais estão a ensinar as crianças a olharem para o
lado, a alienarem-se da parte desagradável da vida. Os miúdos têm de
estar longe de qualquer coisa que os possa afligir. A noção da vida que a
maior parte dos pais quer passar é que a vida é muito prazeirosa. Se
não dá prazer, muda o disco.
Claro que poupo os meus filhos às imagens mais gráficas, mas
explico-lhes: 'Isto está acontecer na Hungria, onde há meninos que
perderam os pais, que perderam os irmãos'.
O meu discurso para com os meus filhos tem de colar com o que eu
faço. Acredito que com esta viagem também estou a educar pelo exemplo:
'Filho, se vires algo que está errado, não deves olhar para o outro
lado, deves tentar ajudar'. Desde que respeitando a lei e por meios
pacíficos."
O que diz a lei
"Se analisarmos a Convenção de Genebra, de que somos signatários, e o
Estatuto do Refugiado, ninguém pode dizer que estas pessoas não
preenchem todos os requisitos. São obrigadas a sair do seu país porque a
sua vida está sob ameaça; foram perseguidas; não estão em segurança
(mesmo que fora da zona de guerra). E existe o princípio de não repelir
as pessoas que estão em estado de necessidade e a pedir ajuda.
O que é que cada um dos Estados pode fazer: dizer que esta ou aquela
pessoa não reúne todas as condições para pedir um asilo a título
definitivo. Mas não pode recusar o auxílio imediato porque há uma
urgência humanitária.
O mínimo que se deve fazer é acolher provisoriamente estas pessoas. Socorrê-las.
Lembrem-se do princípio de quem anda no mar: vemos um náufrago e
recolhêmo-lo no nosso barco. Não vamos deixá-lo à vista e analisar se há
espaço. E nós temos muito espaço neste barco."
A história do avô
"Há uma grande confusão entre o refugiado de guerra e o emigrante ilegal.
Praticamente todas a gente tem emigrantes na família. O meu avô
paterno, que já morreu, trabalhava na Marinha Mercante nos anos 30.
Achou que não recebia o suficiente e, numa viagem aos EUA, em dezembro, o
barco atracou e ele conseguiu saltar borda fora. Só levava a roupa que
tinha na pele, estava sem documentos, não falava uma palavra de Inglês.
Ao fim de uns dias na rua, ao frio, houve alguém, que ele nunca mais
viu, que lhe emprestou roupa e dinheiro para arranjar documentos falsos,
para poder trabalhar. Como era ilegal, esteve oito anos sem vir a
Portugal, onde tinha a mulher e o filho. Até que decidiu voltar. E o que
é certo é que o facto de este meu avô ter emigrado permitiu que a minha
família paterna vivesse de uma maneira completamente diferente. Isto é a
emigração ilegal: homens a saírem do país como podiam, mas não levavam
com eles bebés de colo nem grávidas."
O cinismo europeu
"Há um cinismo institucional total. Ver aquelas barreiras policiais e bebés a gatinharem à frente é de uma enorme hipocrisia.
Parece haver uma vontade de dissuadir os outros: 'Vamos tratar mal estes para não virem mais bater-nos à porta'.
Que Europa é esta que estamos a destruir?
Quero ter orgulho em ser português, em ser europeu."
A viagem
"Quando tivemos esta ideia, não sabíamos que já há muita gente na
Europa a fazer o mesmo. Já há austríacos e alemães a irem à Hungria,
para ajudar os refugiados a passarem a fronteira.
Como cidadãos europeus, temos livre circulação. E mesmo fora do
espaço Schengen, conseguimos sair. O problema será voltar a entrar com
os refugiados.
Se não conseguirmos ajudar ninguém que esteja no outro lado do muro,
podemos ir aos campos de concentração na Hungria onde os refugiados
estão a ser muito maltratados. São os relatos que nos vêm de lá.
Outra hipótese - e só vamos decidir a caminho - é irmos em direção à Croácia.
Vou eu e o Pedro, cada um com um copiloto. Isso é certo. Se
contabilizarmos todas as pessoas que já demonstraram vontade de ir
connosco, teremos um grupo de uns vinte carros nos jardins à frente do
Palácio de Belém. Assim, as entidades não podem dizer que não nos viram
partir.
Cada um é responsável pelo seu carro, pela vinda de uma família,
pelos custos. Não vamos aceitar nenhum donativo financeiro (a
profissionalização da caridade já me assusta).
Vamos gastar provavelmente o que gastaríamos numa semana de férias.
Vamos dormir no carro, comer em andamento para não perder tempo,
apanhar frio."
Os custos
"Não é preciso ser-se rico para ajudar o outro. É só preciso ter
noção de que vou abdicar de alguma coisa. No meu caso, do tempo com os
filhos, do dinheiro que podia gastar noutro sítio.
Vivo num T3, com 90 metros quadrados. Os meus filhos dormem todos no
mesmo quarto. Se vier uma família com dois filhos e dormirem no quarto
que está vago, estou a dar-lhes as mesmas condições que dou aos meus
filhos."
Os riscos
"As pessoas que estão a ajudar-nos junto dos refugiados tentarão
'selecionar' as famílias que estejam dispostas a virem voluntariamente
para Portugal.
Eles serão nossos convidados e vão fazer pedidos de visto e de
estadia temporária. Vamos usar todos os argumentos possíveis para fazer
os refugiados chegarem a um local seguro.
Mesmo com argumentação jurídica, podem dizer o que entenderem... Eu
só posso ser julgado por auxílio à emigração ilegal se os refugiados
forem considerados emigrantes ilegais."
A única garantia
"Já nos perguntarem se podemos ser detidos. A única garantia que
posso dar é que não faremos nada sem que estejamos salvaguardados por
uma argumentação jurídica sólida e que não seja do conhecimento das
autoridades oficiais.
Amanhã [quarta-feira, 23], o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras vai
avaliar a nossa iniciativa. E já falei com o Rui Marques [presidente do
Instituto Padre António Vieira e mentor da Plataforma de Apoio aos
Refugiados], que já disse que nos ajudará naquilo que lhe for possível."
Um grito de alerta
"O país está em campanha, está em suspenso. Não se trata de assuntos internos nem de assuntos externos. Há muita distração.
Nós queremos dar um grito de alerta, é preciso estarmos acordados.
Se o processo da vinda dos refugiados para Portugal for acelerado dois
ou três dias, já valeu a pena.
Queremos que [os governantes] ponham os refugiados no topo da resma
de papel que têm em cima da secretária. Porque todos os dias morre
gente à soleira da Europa."