quinta-feira, 29 de junho de 2017

Homens vs. mosquito. Bill Gates acreditou nesta vacina portuguesa

Mosquitos. São uma ameaça importante devido às doenças que podem transmitir: Malária, Zika, Vírus do Nilo Ocidental, Dengue, Febre Amarela, entre outras. No entanto, desempenham um papel importante nos ecossistemas onde existem. Por que razão os devemos temer? Porque a próxima picada pode ser fatal. Na luta pela sobrevivência entre o Homem e o Mosquito, Portugal avançou com uma vacina contra a malária que está desde o final de maio a ser testada em humanos. E tudo começou com financiamento da Fundação Bill & Melinda Gates.
O documentário "Mosquito", com estreia mundial a 6 de julho, pelas 21h00, no Discovery Channel, foi o ponto de partida para uma conversa com o investigador Miguel Prudêncio, do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Universidade de Lisboa, responsável pela equipa que desde 2010 trabalha na criação de uma vacina contra a Malária.
Filmado em quatro continentes, 'Mosquito' junta entrevistas de especialistas e as histórias de famílias que vivem com medo de que a próxima picada possa ser a última. Narrado pelo nomeado ao Óscar Jeremy Renner, o documentário enfatiza a ameaça que este pequeno animal representa.
E que animal é este? Miguel Prudêncio ajuda a descodificar.
São os mosquitos os nossos maiores inimigos?
É difícil fazer generalizações deste tipo. Os mosquitos podem efetivamente ser uma ameaça importante devido às doenças que podem transmitir, mas a saúde humana tem muitos outros “inimigos” porventura tão ou mais perigosos, como o tabaco ou o açúcar.
Há diferenças entre mosquitos?
Sim, há. Existem numerosas espécies de mosquitos diferentes, com habitats diferentes, preferências diferentes em relação aos hospedeiros mamíferos de que se alimentam, e capacidades também diferentes de transmitir doenças. Existe uma elevada especificidade dos mosquitos capazes de transmitir um determinado patogénio pelo que, desse ponto de vista, os perigos colocados por diferentes espécies de mosquitos variam enormemente.
"Sabe-se que o odor corporal desempenha um papel importante nas 'escolhas' feitas pelos mosquitos"
Todos os mosquitos são maus?
Esta é outra generalização que não se deve fazer. Os mosquitos desempenham um papel importante nos ecossistemas onde existem, servindo de alimento a numerosas espécies de animais que se encontram num patamar mais elevado da cadeia alimentar. Os mosquitos não são “maus” e não picam as pessoas para lhes transmitirem doenças, mas sim porque isso faz parte do seu ciclo de sobrevivência. É claro que os mosquitos podem ser muito perigosos na medida em que podem transmitir doenças graves, como o Dengue ou a Malária, mas não o fazem por “maldade”.
Por que razão os devemos temer? É no mosquito fêmea que se deve focar a nossa atenção?
Os mosquitos devem ser temidos pelo desconforto que causam (todos sabemos quão desconfortável pode ser uma picada de mosquito) e pelo seu potencial de transmitir doenças. São efetivamente as fêmeas que colocam o problema, pois apenas elas se alimentam de sangue, algo de que necessitam para completar o seu processo reprodutivo.
Como é que os mosquitos escolhem as suas ‘vítimas’?
Diferentes espécies de mosquitos têm preferências diferentes em relação aos hospedeiros mamíferos de que se alimentam. Além disso, dentro de cada par de espécies mosquito-hospedeiro, existem preferências ao nível do indivíduo. Mais concretamente em relação aos seres humanos, sabe-se que o odor corporal desempenha um papel importante nas “escolhas” feitas pelos mosquitos. Curiosamente, também outros fatores podem influir nessa “decisão”, estando descrito que, por exemplo, a presença em circulação do parasita da malária numa fase em que este está pronto a ser transmitido aumenta a atratividade desse hospedeiro para os mosquitos.
“Fui picada por um mosquito”. O que se deve fazer após uma picada e que sintomas merecem maior atenção?
Por um lado, há a questão de como atuar sobre o desconforto causado pela picada de um mosquito. Nesse particular, a sabedoria popular está cheia de receitas para “aliviar a comichão”, mas a utilização de um anti-histamínico tópico parece ser a estratégia mais adequada. Por outro lado, se a picada ocorrer numa região em que se saiba que há transmissão de doenças por mosquitos, é prudente ficar atento a quaisquer sintomas de doença que possam aparecer (febres, dores musculares, desconforto, etc.) e, no caso de se consultar um médico a respeito desses sintomas, informá-lo acerca da região que se visitou anteriormente, e quando essa visita ocorreu.
"Um mito corrente é o de que os mosquitos podem transmitir o HIV/SIDA. Isto não é verdade."
Como é que nos devemos proteger de um mosquito?
A melhor maneira de nos protegermos contra mosquitos é evitar as picadas. Existem algumas formas de o fazer, como a utilização de vestuário largo, de cores claras e que deixe o mínimo possível de pele a descoberto, a utilização de repelentes, e, nas regiões em que tal se justifique, a utilização de redes mosquiteiras, nomeadamente durante a noite. Também é importante saber que existem alturas do dia em que os mosquitos estão mais ativos, nomeadamente ao amanhecer e ao entardecer, pelo que as medidas de proteção devem ser reforçadas nesses períodos.
Que mitos existem em torno nos mosquitos e das suas picadas?
Um mito corrente é o de que os mosquitos podem transmitir o HIV/SIDA. Isto não é verdade.
Quantas espécies de mosquitos já foram encontradas em Portugal? Quais são as espécies consideradas importantes ameaças à saúde pública no nosso país?
Existem cerca de quarenta espécies diferentes de mosquitos em Portugal. No passado foram responsáveis pela transmissão de Malária, Febre-amarela, Febre do Nilo Ocidental e dirofilarioses. Atualmente, a vigilância é altamente necessária pois, tal como aconteceu na Madeira recentemente, mosquitos do género Aedes, espécies agressivas e responsáveis pela transmissão de diversos patogénios (por exemplo Zika, Dengue, Vírus do Nilo Ocidental, Chikungunya, etc.) têm vindo a ser encontrados com prevalência crescente no Sul da Europa.
Que regiões do país são mais afetadas?
Dado que uma parte significativa do ciclo de vida do mosquito ocorre em ambiente aquático, as zonas onde há abundância de águas paradas, como estuários, são particularmente afetadas.
E há alturas do ano onde essas regiões são mais afetadas?
Existe uma variabilidade na prevalência de mosquitos ao longo do ano, relacionada com a temperatura e a humidade, já que os mosquitos têm preferências muito estritas em relação a estes dois fatores. Geralmente, as épocas imediatamente após chuvas abundantes são particularmente propícias ao aparecimento de mosquitos.
Qual é a doença transmitida pelos mosquitos com maior crescimento no Mundo (em número de casos)?
A doença transmitida por mosquitos com crescimento mais acelerado nos últimos anos é o Dengue, com um aumento de 30 vezes nos últimos 5 anos.
"A malária é a doença transmitida por mosquitos que tem vindo a sofrer o maior decréscimo no número de casos a nível mundial."
Em Portugal a tendência é a mesma? O que potenciou o seu crescimento?
Em termos de doenças que afetam o ser humano, o Dengue é, também em Portugal, a que causa maiores preocupações. Este crescimento é potenciado pela introdução de mosquitos do género Aedes, vetores altamente competentes para a transmissão do vírus do Dengue. Existem vários fatores a condicionar a introdução de mosquitos e dos respetivos agentes patogénicos. O transporte de contentores poderá estar na origem da chegada deste mosquito à Madeira mas as alterações climáticas, com as estações da primavera e outono mais quentes e favoráveis à reprodução de mosquitos também ajudam na perpetuação de agentes patogénicos transmitidos pelos mesmos.
E ao contrário, qual a doença que tem registado uma diminuição do número de pessoas infetadas a nível mundial? E em Portugal?
A malária é a doença transmitida por mosquitos que tem vindo a sofrer o maior decréscimo no número de casos a nível mundial. A malária foi erradicada de Portugal em 1959 e considerada extinta do país em 1973 pela Organização Mundial de Saúde, apenas ocorrendo atualmente casos de malária “importada”. No entanto, um mosquito capaz de transmitir malária, Anopheles atroparvus, continua a existir em Portugal e em elevadas densidades, pelo que a vigilância quer-se apertada.
Qual o impacto da malária a nível global?
A malária tem um enorme impacto a nível mundial, ocorrendo cerca de 200 milhões de infeções anuais, das quais resultam cerca de 420.000 mortes também anuais, sobretudo em crianças até aos 5 anos de idade.
Quais são as regiões do globo mais afetadas pela doença?
A malária existe em diversas partes do globo, nomeadamente na África Subsaariana, Sudoeste Asiático e algumas regiões da América Latina. A maior mortalidade atribuída à Malária ocorre na África Subsaariana.
E são os seus sintomas, quais são?
Os sintomas iniciais da malária são febres periódicas, mal-estar geral, dores musculares, dores de cabeça e anemia. Nos casos mais graves a malária pode evoluir para síndromas mais sérios como a malária cerebral ou falhas respiratórias graves, podendo conduzir ao coma e à morte.
Entre o momento da picada e a manifestação dos primeiros sintomas quanto tempo pode decorrer?
Depende da espécie de parasita da malária responsável pela infeção, mas esse período varia entre 7 e 14 dias.
E que tipos de malária há?
Só existe uma malária, mas esta pode evoluir para síndromas diversos, como a malária cerebral.

A vacina portuguesa contra a Malária

Ao fim de sete anos de trabalho, e depois de testes em células e em animais, a equipa internacional liderada pelo cientista português Miguel Prudêncio, do Instituto de Medicina Molecular, em colaboração com o Centro Médico da Universidade de Radbound, na Holanda, e com a PATH Malaria Vaccine Iniciative, entidade que coordena mundialmente o desenvolvimento de vacinas contra a malária, está desde o final de maio a testar a vacina portuguesa em ensaios clínicos em humanos.
Qual foi o ponto de partida para este projeto de investigação? Quando é que teve início e como tem sido apoiado?
O projeto teve início em 2010, com uma primeira fase de financiamento por parte da Fundação Bill & Melinda Gates (BMGF), no âmbito do seu programa Grand Challenges Explorations (GCE), no valor de 100.000 dólares. Na altura tratou-se do primeiro financiamento do programa GCE da BMGF a um projeto português.
Em 2012 submetemos o relatório do trabalho realizado com esse financiamento inicial, e em 2013 obtivemos o financiamento da segunda fase do programa GCE, financiamento esse que é atribuído apenas a cerca de 10% dos projetos financiados pela fase 1 do programa. Foi também a primeira vez (e, que eu saiba, a única) que um projeto português obteve financiamento de fase 2 do programa GCE da BMGF. Esse financiamento começou por ser de cerca de 900.000 dólares, a que se seguiram dois suplementos, perfazendo um total de cerca de 1.5 milhões de dólares.
Em 2015 a BMGF considerou que o projeto era suficientemente promissor para transitar para a esfera do Malaria Vaccine Initiative (MVI), uma entidade financiada em grande parte pela própria BMGF, e que coordena e prioritiza o desenvolvimento de vacinas contra a malária a nível mundial.
Ainda em 2015, já sob a esfera do MVI, obtivemos um financiamento de cerca de 250.000 dólares para prosseguir os estudos necessários conducentes à realização de ensaios clínicos com a nossa vacina.
Em 2016, tendo concluído todo o trabalho experimental necessário para a submissão do pedido para a realização de ensaios clínicos, submetemos esses pedidos às autoridades holandesas, já que o ensaio será realizado na Holanda.
O ensaio está orçado em cerca de 1,5 milhões de dólares.
créditos: Miguel Prudêncio na conferência da Bill & Melinda Gates Foundation, em Seattle, em outubro de 2014.
Quais foram os momentos mais importantes?
Existiram diversos momentos marcantes durante a investigação. Para os compreender há que conhecer minimamente a ideia subjacente a esta estratégia de vacinação:
- Existem parasitas Plasmodium que causam malária em diferentes tipos hospedeiros. Um deles é o P. berghei, que causa malária em roedores e não é patogénico para humanos.
- A nossa proposta baseia-se na utilização do P. berghei como plataforma de vacinação contra a malária humana. A ideia de plataforma é essencial porque a nossa proposta vai além da simples utilização do P. berghei como vacina. O que propomos é utilizar as ferramentas genéticas que hoje nos permitem modificar geneticamente os parasitas Plasmodium para "mascarar" o P. berghei de parasita humano, através da introdução de antigénios do parasita humano no genoma do parasita de roedores.
Entre os momentos mais importantes da investigação contam-se a demonstração que o nosso candidato a vacina, o parasita P. berghei geneticamente modificado (PbVac), é capaz de infetar as células do fígado humano, condição necessária para o desenvolvimento de uma resposta imunitária, sendo incapaz de se desenvolver em glóbulos vermelhos humanos, o que poria em causa a segurança da vacina. Outro momento crucial foi a demonstração de que a imunização de modelos animais com esta vacina espoleta uma resposta imunitária capaz de reconhecer e inibir a infeção pelo parasita humano.
Que dificuldades encontraram ao longo da investigação?
A dado momento tivemos a necessidade de identificar um novo modelo animal em que o PbVac se comportasse como se espera que se comporte em seres humanos, isto é, capaz de infetar as células do fígado mas incapaz de se desenvolver nas células do sangue. Tal modelo não era óbvio já que o modelo laboratorial mais comummente utilizado, os ratinhos, não preenchia estes requisitos. Assim, estabelecemos “de raiz” um novo modelo animal capaz de mimetizar o comportamento esperado do PbVac em seres humanos. Esse modelo é o coelho e permitiu-nos realizar os ensaios de imunização que confirmaram a imunogenicidade da vacina.
créditos: Instituto de Medicina Molecular (IMM)
Que evolução permitiu passar dos testes em células e animais para humanos? Nesses testes qual era a taxa de sucesso?
Foram realizados todos os ensaios passíveis de serem levados a cabo em modelos laboratoriais e animais. Do conjunto desses resultados pré-clínicos resultou a demonstração da prova-de-conceito da estratégia de vacinação proposta, tendo-se obtido taxas de proteção superiores a 90% em modelos animais. De seguida foi necessário levar a cabo um conjunto adicional de ensaios de segurança visando assegurar que a administração do candidato a vacina a seres humanos não oferece riscos para a saúde dos mesmos. Deste pacote de dados pré-clínicos resultou o nosso pedido de autorização para a realização de ensaios clínicos em seres humanos.
Como é que se vai processar o ensaio clínico? Quais são as suas fases?
O ensaio clínico envolve 30 voluntários saudáveis e decorrerá em 2 fases. Uma primeira fase é de segurança e tolerabilidade e visa avaliar quaisquer efeitos adversos que possam advir da administração da vacina; a segunda fase é um ensaio de eficácia, em que a proteção conferida pela vacina é avaliada comparando o aparecimento de infeção em voluntários vacinados e não vacinados sujeitos a uma infeção pelo parasita da malária humana (P. falciparum).
Quando são esperados os primeiros resultados?
São esperados os primeiros resultados da fase de segurança e tolerabilidade em setembro de 2017 e os resultados de eficácia no segundo trimestre de 2018.
Qual é o desafio a que esta vacina se propõe em comparação a outras já existentes no mercado farmacêutico?
Não existem vacinas contra a malária no mercado farmacêutico. O que existem são diversos candidatos em diferentes fases de testes. O mais avançado destes candidatos designa-se RTS,S e está em fase de pré-licenciamento. No entanto, oferece um grau de proteção muito modesto, da ordem dos 30%. O que gostaríamos de observar era uma taxa de proteção significativamente superior a esta através da vacinação com o nosso candidato a vacina.
Após o ensaio clínico, quais os próximos passos?
Tudo depende dos resultados obtidos. Se se observar uma taxa de proteção muito modesta, o desenvolvimento adicional desta vacina fica posto em causa. Se se observar uma taxa de proteção significativa, esperamos conseguir uma continuação do apoio do MVI para avançar para as fases seguintes de ensaios clínicos.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Portugueses descobrem no mar a solução para acabar com os microplásticos poluentes

Pode ser a chave para o grave problema ambiental dos microplásticos nos oceanos. Chama-se Zalerion maritimum e acaba de ser descoberta na Universidade de Aveiro (UA).
Trata-se de um fungo marítimo que não só consegue degradar o microplástico como o faz de forma rápida e eficiente. Esta é a primeira solução ecológica alguma vez descoberta para combater os plásticos nos oceanos já que ao otimizar-se o raro apetite do fungo recorre-se a uma solução oferecida pelo próprio mar.
Portugueses descobrem no mar a solução para erradicar os microplásticos
créditos: Universidade de Aveiro
Comum na costa portuguesa e com um habitat espalhado a vários oceanos do planeta, o estudo do apetite do Zalerion maritimum por microplásticos foi publicado no último número da revista Science of The Total Environment tendo sido destacado pelo editor como um verdadeiramente novo campo de investigação.
E os dados apresentados pelos investigadores do Departamento de Química (DQ) e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da UA não deixam margem para dúvidas: isolado em laboratório num ambiente em tudo semelhante ao do mar poluído com microplásticos, em sete dias o Zalerion maritimum consegue reduzir 77 por cento daquele material.
“As experiências foram efetuadas, em pequena escala, em reatores de 100 mililitros usando um volume de 50 mililitros de meio enriquecido com um mínimo de nutrientes e 0,130 gramas de microplásticos. Entre 7 a 15 dias foram removidos 0,100 gramas de microplásticos”, congratula-se Teresa Rocha Santos, a coordenadora do estudo.
Este trabalho deu os primeiros passos há um ano atrás pela mão de Ana Paço, então estudante finalista da Licenciatura em Biotecnologia da UA. Os investigadores do DQ e do CESAM, João Pinto da Costa e Armando Duarte, são outros dois membros de uma larga equipa envolvendo outras universidades e centros de Investigação que assinam igualmente este trabalho que é um primeiro passo rumo à biodegradação global dos microplásticos presentes nos oceanos.
Solução inédita num fungo quase desconhecido
“Este é sem dúvida o primeiro estudo a apresentar estratégias de biorremediação [processo que utiliza organismos vivos para reduzir ou remover contaminações no ambiente] de microplásticos. Portanto este trabalho pode ser considerado um primeiro passo e uma contribuição para a resolução deste problema”, apontam os investigadores.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Público

Centros de saúde vão passar a realizar exames e tratamentos

A ideia é que alguns dos exames e tratamentos passem a estar disponíveis nos centros de saúde sem que para isso os utentes tenham que recorrer às urgências.

O Ministério da Saúde vai pôr em marcha o projeto-piloto “SNS+Proximidade” com o intuito de mudar a forma como os pacientes se relacionam com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e agilizar o processo de atendimento dos utentes. A ideia é que alguns dos exames e tratamentos passem a estar disponíveis nos centros de saúde sem que para isso os utentes tenham que recorrer às urgências.
Segundo avança o ‘Jornal de Notícias’, entre os  exames que vão passar a poder ser feitos nos centros de saúde estão as análises clínicas, raio-X, espirometrias, eletrocardiogramas, reabilitação física e terapia da fala. A iniciativa vai arrancar na região norte do país, “a única atualmente com condições para avançar com o projeto” e vai ser apresentado esta quinta-feira no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, onde, em conjunto com centros de saúde da zona, se encontram 18% do total de inscritos da região (657.544 utentes).
Neste projeto, o foco passa a estar no doente e nas suas necessidades, estando previsto o reencaminhamento dos utentes triados com pulseira azul ou verde (pouco urgente) para centros de saúde, para que seja atendido mais rapidamente pelo médico de família.
Além da articulação dos cuidados de saúde, o projeto “SNS+Proximidade” tem ainda como eixo estruturante a literacia em saúde e a gestão do percurso de vida. O Ministério da Saúde vai criar um Plano Individual de Cuidados (PIC), onde o paciente poderá registar os seus problemas, objetivos e metas a atingir, em parceria com uma equipa de saúde.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

ZAP

Vacina para reduzir colesterol está a ser testada em humanos


Elza Fiúza / Flickr
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Uma vacina que reduz o colesterol e ajuda a prevenir ataques cardíacos está a ser experimentada em seres humanos voluntários, após estudos com resultados satisfatórios em ratos, segundo um artigo científico.
Os ensaios clínicos estão a cargo de investigadores da Universidade Médica de Viena e pretendem concluir se a vacina consegue reduzir as gorduras que bloqueiam as artérias e evitar que os doentes tenham de tomar diariamente comprimidos para minimizar o risco de ataques cardíacos.
Os investigadores avisam que podem ser necessários anos de ensaios para saber se o tratamento é seguro e efetivo, de acordo com um artigo publicado na última edição do European Heart Journal.
Os peritos salientam ainda que, mesmo que a vacina venha a estar disponível no futuro, não pode ser considerada uma desculpa para evitar modos de vida saudáveis, como exercício físico ou alimentação baixa em gordura.
A vacina em testes ajuda o sistema imunológico do organismo a atacar uma proteína – PCSK9 – que é a que permite que mau colesterol (LDL) se acumule no sangue.
De acordo com os peritos, citados pela agência EFE, o tratamento experimentado nos ratos reduziu em 50% o colesterol LDL por um período de 12 meses e demonstrou proteger contra a acumulação de depósitos de gordura nas artérias.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Green Savers

Já se pode aspirar o CO2 do ar

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A corrida contra o aquecimento global acaba de ganhar mais uma arma de peso. Uma empresa suíça, a Climeworks, apresentou uma inovadora solução que permite aspirar o CO2 do ar, retirando-o da atmosfera. É a primeira vez que uma empresa consegue lançar para o mercado uma solução de captura de CO2 economicamente viável. Igualmente interessante é o facto de esse CO2 poder ter depois um sem número de aplicações, dos refrigerantes à produção de fertilizantes vegetais para a agricultura.
Segundo a Climeworks, as suas centrais aspiram o ar e o CO2 fica retido em filtros por um processo químico. Sempre que um filtro está cheio, é aquecido e o CO2 libertado na forma de gás, que é depois capturado. Cada filtro pode ser utilizado por milhares de ciclos e a empresa dispõe já de centrais com vários formatos, capazes de se adaptar a diferentes áreas ou indústrias específicas.
climeworks 2
A primeira central foi instalada precisamente na Suíça e tem a capacidade para aspirar até 900 toneladas, o equivalente à emissão de 200 carros por ano. A meta da Climeworks é de instalar centrais em número suficiente para conseguir, até 2025, capturar o equivalente a 1% das emissões globais. A empresa encontra-se neste momento em processo de expansão do negócio.
 Foto: Climeworks

sábado, 17 de junho de 2017

Cientistas produzem substância que bronzeia e previne cancro da pele

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Um grupo de cientistas de Boston, nos EUA, descobriu uma substância capaz de penetrar na pele e bronzear sem a necessidade de exposição aos raios ultravioleta do Sol, reduzindo o risco de desenvolver um cancro de pele.
Os cremes autobronzeadores atuais têm apenas o objetivo de colorir a camada superficial da pele, mas a nova molécula estimula as células que produzem os pigmentos, ou seja, engana a pele fazendo-a produzir uma forma castanha do pigmento melanina.
Segundo o estudo publicado nesta terça-feira na revista científica americana “Cell Reports”, a substância provou a sua eficácia em amostras de pele e em cobaias, mas ainda terá de ser submetida a testes pré-clínicos para saber se é segura para os humanos.
A substância, aplicada como um creme, permitiu bronzear a epiderme de camundongos de pelo vermelho que, tal como os humanos, podem desenvolver cancro de pele devido à exposição aos raios ultravioleta.
Esta investigação foi desenvolvida através de um estudo publicado em 2006 na revista científica Nature que mostrou que outra substância, a forscolina, produzida por uma planta da Índia, pode induzir o bronzeado na pele de ratos sem exposição aos raios ultravioleta
No entanto, os cientistas logo descobriram que a forscolina não pode penetrar na pele humana, que não está protegida por uma camada de pelo espessa e desenvolveu proteções contra o frio, o calor e as radiações ultravioleta, entre outros.
“A pele humana é uma barreira formidável, difícil de penetrar. Dez anos depois, encontrámos uma solução. É uma classe diferente de compostos, que agem sobre uma enzima diferente que converge no mesmo caminho e que leva à pigmentação“, disse o autor principal do estudo, David Fisher.
“A importância deste novo estudo reside numa nova estratégia de proteção da pele e de prevenção do cancro de pele. A pele é o maior órgão do nosso corpo e pode ser afetado pelo cancro, na maioria dos casos por uma exposição aos raios ultravioleta”, destacou Fisher.
ZAP //

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Portugueses descobrem novo mecanismo com efeito protetor contra a sépsis

Uma equipa de investigadores liderada pelo português Miguel Soares descobriu um novo mecanismo que tem um efeito protetor contra a sépsis, uma infeção espalhada por diferentes partes do corpo e que pode ser mortal.
créditos: AFP
O estudo é hoje publicado na revista científica Cell e foi divulgado em comunicado pelo Instituto Gulbenkian de Ciência, instituição a que pertence o investigador Miguel Soares.
Nos últimos cinco anos, esta equipa de investigadores tem proposto que os doentes que resistem à sépsis desenvolvem uma resposta protetora que mantém a função dos órgãos vitais, conferindo tolerância à infeção. “Utilizando modelos experimentais de sépsis em ratos, a equipa de Miguel Soares descobriu agora um mecanismo que é vital para conferir essa tolerância”, refere o Instituto Gulbenkian de Ciência.
Segundo os investigadores, um elemento essencial para promover a tolerância à infeção é a forma como os níveis de ferro são controlados em diferentes tecidos. Ao mesmo tempo, sabia-se já que a forma de desenvolvimento (patogénese) da sépsis está associada com a desregulação do metabolismo da glucose (açúcar).
“O que descobrimos agora é que estes dois fenómenos estão intimamente interligados. O controlo do metabolismo do ferro é necessário para manter a produção de glucose no fígado, de modo a que este açúcar possa ser usado como fonte vital de energia para outros órgãos”, refere Miguel Soares na nota do Instituto Gulbenkian de Ciência.
Sebastian Weis, investigador que se encontra a fazer um pós-doutoramento com Miguel Soares, induziu sépsis em ratos de laboratório e comparou a progressão da doença em ratos com ou sem ferritina, uma proteína que controla o ferro no fígado.
Descobriu então que a ferritina é absolutamente necessária para que o fígado produza glucose depois da infeção e, assim, proteger o rato de sucumbir à sépsis.
“Os nossos resultados mostram que a ferritina controla a produção de glucose no fígado de modo a que os níveis de glucose no sangue sejam mantidos dentro de um limite que permita a sobrevivência. Sem ferritina, os níveis de glucose continuaram a descer e os ratos morreram de sépsis”, refere Sebastian Weis, atualmente investigador em Jena University Hospital (Alemanha), onde parte das experiências foram conduzidas.

Cientistas criam técnica que destrói coágulos sanguíneos potencialmente mortais

Investigadores da Universidade da Carolina do Norte, Estados Unidos, desenvolveram uma nova técnica para destruir coágulos no sangue que causam as tromboses venosas profundas, a principal causa de embolia pulmonar, utilizando ultrassom intravascular de baixa frequência.
A ferramenta, anunciou hoje a universidade em comunicado, é a primeira “broca” de ultrassom diretamente orientada para os coágulos, permitindo aos médicos maior precisão, o que pode reduzir substancialmente o tempo de tratamento. A nova tecnologia ainda só foi testada em vasos sanguíneos sintéticos.
As ferramentas do género já existentes emitem ondas de ultrassom lateralmente, o que torna mais difícil atingir apenas os coágulos e pode levar o ultrassom a danificar outros vasos. Por outro lado, a nova técnica fragmenta os coágulos em pedaços muito pequenos, não sendo por isso necessárias grandes doses de medicamentos para os dissolver.
Há outras técnicas para dissolver os coágulos de forma mais direcionada mas os pedaços ficam relativamente grandes, sendo por isso necessárias doses mais elevadas de medicamentos, disse Xiaoning Jiang, professor de engenharia mecânica e aeroespacial na Universidade citado no comunicado.
“A nossa abordagem melhora a precisão e não depende de grandes doses de medicamentos anticoagulantes, o que esperamos que reduza os riscos de toda a operação”, disse.
Testando a técnica num protótipo de um vaso sanguíneo sintético usando sangue de vaca, os investigadores concluíam que podiam “dissolver 90 por cento de um coágulo em entre três horas e meia e quatro horas sem usar nenhum medicamento anticoagulante”, referiu Jinwook Kim, autor principal do estudo. Ferramentas de ultrassom convencionais combinadas com medicamentos fazem um trabalho idêntico em 10 horas, acrescentou.
O que é uma trombose venosa profunda?
A trombose venosa profunda é a formação de um coágulo de sangue (trombo) no interior das veias profundas das pernas ou da região pélvica. O coágulo de sangue bloqueia o fluxo de sangue e faz com que a pressão aumente dentro da veia. Parte do coágulo pode libertar-se e mover-se através da circulação sanguínea até aos pulmões, o que é denominado embolia pulmonar. A trombose venosa profunda constitui um problema comum. A maior parte destes coágulos ocorrem quando o fluxo de sangue nas veias das pernas se torna mais lento, geralmente como consequência da imobilidade.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Investigador mexicano desenvolve software que prevê ataques cardíacos


No Hospital de Galway, na Irlanda, está a ser usado um dispositivo para “prever” eventos cardíacos em pessoas com risco de morte súbita cardíaca.
Em 2013, os cardiologistas do hospital usaram esta tecnologia para diagnosticar e provar a sua exactidão.
A tecnologia foi desenvolvida por um investigador mexicano da Universidade de Galway, que já patenteou o dispositivo e procura agora vendê-lo a empresas especializadas.
Na Irlanda, há seis milhões de habitantes e oito mil são mexicanos. O investigador Antonio Aguilar é um deles.
Aguillar veio à Irlanda visitar a família e aprender Inglês. Decidiu ficar para terminar o curso de engenharia electrónica e continuar com os estudos de pós-graduação.
Há quatro meses, Aguillar fundou a sua própria empresa de software médico para hospitais, a Healthformics.
A história da empresa começou com o tema da sua tese de doutoramento: um Método para diagnosticar pacientes com alto risco de morte súbita cardíaca.
“Decidi focar-me na morte cardíaca súbita porque mata muitas pessoas e é muito difícil de prever“, diz o investigador.
antonio-aguilar.com
O investigador mexicano António Aguillar, da Universidade de Galway
O investigador mexicano António Aguillar, da Universidade de Galway

O “truque” do algoritmo

Com uma bolsa de estudos de um instituto de investigação de Galway, o engenheiro electrónico começou a desenvolver um algoritmo, que testa pacientes, fazendo-lhe um electrocardiograma e gravando 15 minutos de batimento cardíaco.
O algoritmo processa esta informação e analisa, com um modelo estatístico, se o paciente está em risco de arritmia, que é o sinal de morte cardíaca súbita.
“Quando há menos variabilidade da frequência cardíaca de um paciente, isso indica um problema. Estudámos o electrocardiograma de muitos pacientes que têm diabetes e outras doenças cardiovasculares e a variabilidade da frequência cardíaca é muito diferente em pacientes doentes e saudáveis”, explica Aguillar.
“Antes de sofrer uma arritmia um paciente tem certos padrões que se detectam e a variabilidade da frequência cardíaca é menor. Com este algoritmo pode-se prever se o paciente vai ter uma arritmia, horas antes de acontecer”, diz o investigador.
O cientista mexicano usou uma base de dados de 400 pacientes para “testar” o algoritmo e diagnosticar com sucesso pacientes com risco de arritmia.
Apesar de ter nascido em Irapuato, Guanajuato, no México, Antonio Aguilar viveu em Acapulco, Guerrero, e Nuevo Laredo, Tamaulipas, onde estudou no primeiro ano de engenharia no Instituto Tecnológico de Nuevo Laredo.

De pequenino se torce o informático

“Desde os nove anos que já sabia que iria para ciências ou computação. Estudei engenharia, porque tinha queda para números, matemática. Mas sempre gostei de computadores, especialmente de electrónica e robots”, conta Aguillar.
Na Irlanda, calhou-lhe um “bom momento da economia do país”, e quando estava no terceiro ano de estudos, iniciou a vida profissional numa empresa que desenvolve software para a Intel, Motorola, entre outras. Aguillar fez na altura um mestrado em micro-electrónica focada no desenvolvimento de microprocessadores.
O investigador voltou entretanto a Galway e ligou-se à área da saúde, desenvolvendo redes sem fio no Hospital Galway e uma aplicação para examinar electronicamente os registos dos pacientes.
Este trabalho como engenheiro de software médico valeu-lhe uma oferta de emprego como investigador na Universidade Nacional da Irlanda, em Galway.
“O meu supervisor disse-me que havia uma bolsa para um doutoramento. Aceitei o projecto, porque era a minha oportunidade de desenvolver o algoritmo para diagnosticar pacientes com morte súbita cardíaca”, diz Aguillar.
Segundo Aguilar, na Irlanda há muitos apoios para estudantes e empresários – ele é um exemplo disso. Desde os tempos de estudante, até hoje, teve sempre oportunidades atrás de oportunidades.
E o investigador aproveitou essas oportunidades para dar ao mundo um diagnóstico precoce da morte súbita cardíaca.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

VISÃO
Portugueses testam vacina contra a malária

Depois de resultados promissores em animais, cientistas do Instituto de Medicina Molecular começam agora os ensaios em pessoas - dispostas a serem picadas por mosquitos centenas de vezes - para avaliar a sua eficácia. Bill Gates financia o trabalho

Todos os anos, a malária mata 429 mil pessoas só em África. As vítimas são sobretudo crianças, picadas por um mosquito que nas glândulas salivares transporta o parasita. A doença afeta os países mais pobres do mundo, com um impacto gigantesco na economia, já de si frágil. Talvez por isso tenha sido tão negligencida - os países fustigados não têm meios para a combater, os mais ricos estão pouco dispertos para o problema. Até que Bill Gates, o homem mais rico do mundo, assumiu a missão de dar a volta a isto. Além de distribuir redes mosquiteiras e fornecer medicamentos, a fundação que criou com a mulher, a Bill and Melinda Gates Foundation, atribui milhões de dólares a projetos de investigação na área.
Desde 2010 que a equipa de Miguel Prudêncio, no Instituto de Medicina Molecular (IMM), em Lisboa, recebe financiamento para desenvolver uma vacina - o objetivo principal na luta contra o parasita (Plasmodium falciparum). Os primeiros passos foram tão promissores que a fundação decidiu transferir o projeto para a Malaria Vaccine Initiative (MVI), entidade que aposta todas as fichas na descoberta de uma vacina. E o sonho de Bill Gates, e de todos os que enfrentam a devastação causada por esta doença, pode já não estar muito longe.
Ao fim de sete anos de trabalho - testes em células; testes em animais, incluindo primatas - Miguel Prudêncio e a sua equipa preparam-se para começar, na Holanda, os ensaios clínicos à sua vacina, a PbVac. Suportados pelo sucesso das fases anteriores, a expetativa nos laboratórios do IMM é de que se esteja prestes a fazer história.
No mercado, já existem vários projetos nesta área, incluindo uma vacina aprovada, da farmacêutica Glaxo. Mas a sua eficácia deixa muito a desejar.
Preparar o organismo para combater uma infeção provocada por um parasita traz mais desafios do que criar defesas contra um vírus ou uma bactéria. Os parasitas são seres mais complexos, com várias estratégias para escapar ao sistema imunitário do hospedeiro. Além disso, no caso do plasmodium, o seu ciclo de vida passa por duas fases, uma no fígado, em que não há ainda sintomas, e uma no sangue, quando a pessoa começa a sentir-se febril, com tremores, dores de cabeça e no corpo e um cansaço extremo.

A vacina portuguesa

A vacina que está no mercado usa pedaços do parasita para provocar uma resposta imunitária. Ou seja, mostra um pequeno fragmento do agente patogénico ao sistema de defesa para que este prepare a sua guarda que deverá entrar em ação quando uma verdadeira infeção acontecer. É uma estratégia segura, mas com uma taxa de sucesso muito baixa - à volta de 30 por cento.
Para levar o organismo a criar um exército mais robusto, o ideal seria usar o parasita inteiro. Mas como fazer isso sem causar a doença? A resposta encontrada pela equipa do IMM é simples, porém engenhosa: usar um parasita que não infeta humanos, mas que produz proteínas do parasita que infeta os humanos. Em concreto, os cientistas (num trabalho experimental realizado por António Mendes) pegaram num parasita que infeta roedores e modificaram-no geneticamente de forma a que ele produza, ou expresse, proteínas características do parasita que infeta os humanos. Uma espécie de lobo envolto em pele de cordeiro. O parasita não provoca doença nas pessoas, mas desencadeia uma resposta imunitária contra o parasita que nos ataca, obrigando o corpo a produzir anticorpos.
Nos ensaios clínicos de fase I - a primeira de três que andecedem a aprovação - 12 voluntários tomarão a vacina e serão posteriormente infetados com malária. O primeiro objetivo é verificar se esta é segura, ou seja, não provoca reações indesejadas. O segundo objetivo é avaliar se é eficaz, evitando que os voluntários, infetados, desenvolvam a doença.
A forma de administração da vacina será, para já, uma picada do próprio mosquito, que carrega nas glâdulas salivares a vacina PbVac (no futuro será desenvolvida uma estratégia de vacinação por injeção). Cada um dos voluntários - estudantes, entre os 18 e os 35 anos - vai sujeitar-se a quatro sessões de 75 picadas cada. No grupo de controle, seis pessoas receberão placebo, pelo que não terão qualquer imunidade quando forem infetadas com malária. Claro que serão todas monitorizados com cuidado extremo e começarão a ser tratadas aos primeiros sinais de infeção. A bem da ciência e da humanidade.