O
número de interessados em aprender português na Austrália tem vido a
aumentar, somando atualmente 650 alunos no país, afirmou hoje o
secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.
A colocação de uma coordenadora
da língua portuguesa na Austrália "permitiu que ao longo dos últimos
três anos" fosse possível "duplicar o número de alunos de língua
portuguesa, duplicar o número de professores e ao mesmo tempo duplicar o
número de estabelecimentos com oferta de língua portuguesa", disse à
Lusa José Luís Carneiro, que termina na terça-feira a primeira visita ao
país.
"Estamos a falar de 650 alunos de língua portuguesa, mas o que
sentimos é que há uma procura cada vez maior", afirmou, alertando para a
importância de coordenar os esforços oficiais, como os do Camões -
Instituto da Cooperação e da Língua, com os de entidades
não-governamentais, para melhorar a capacidade de oferta. Atualmente, há
25 instituições que oferecem ensino de português, num total de 39
docentes.
Na véspera do final da visita, José Luís Carneiro já sabe quando vai
voltar: "Ficou acordada uma próxima visita para o primeiro trimestre de
2018, tendo em vista podermos participar num importante festival que se
realiza em Sydney, no qual participam muitos milhares de portugueses e
cidadãos de países de expressão oficial portuguesa".
"Por essa altura, preparamos a abertura de uma biblioteca que está
previsto ser construída numa das associações de língua portuguesa, a par
do lançamento do ensino da língua portuguesa no pré-escolar [nessa
comunidade] em resultado do esforço do movimento associativo e das
famílias e do próprio museu de etnografia", acrescentou.
Para o próximo ano está também planeada a criação de uma associação
de investigadores portugueses que estão nas várias universidades e
centros de investigação na Austrália.
"Ficámos com o compromisso de até março do próximo ano termos
desenvolvido os esforços com vista à criação desta associação
representativa dos investigadores portugueses na Austrália, que são
cerca de 70", disse.
Além da comunidade portuguesa, funcionários consulares e autoridades
locais, o secretário de Estado encontrou-se com cerca de 40 empresários
lusodescendentes e portugueses.
Neste âmbito, Carneiro destacou a importância da colocação, em março,
no país, de um delegado da Agência para o Investimento e Comércio
Externo de Portugal (AICEP), que está a realizar um "levantamento muito
detalhado, não só das empresas portuguesas que se estão a deslocar para
investir na Austrália, mas também de empresas australianas --
nomeadamente vocacionadas para a extração mineira -- que têm
investimentos em Portugal".
A comunidade portuguesa na Austrália ronda as 50 mil pessoas, a maioria concentradas em Sydney, Melbourne e Perth.
ISG // VM
Lusa/Fim
quarta-feira, 5 de julho de 2017
Portugueses criam tratamento que cura infeções ósseas e regenera o osso
Investigadores do Porto estão a
desenvolver um tratamento para infeções ósseas graves, com compósitos
bioativos e um antibiótico, que regenera o osso ao mesmo tempo que cura a
infeção e evita intervenções cirúrgicas consecutivas, recorrentes na
terapêutica convencional.
Esta solução, orientada para doentes
com osteomielite (infeção óssea que ocorre quando bactérias ou fungos
invadem um osso), transporta e liberta, de forma controlada, o
antibiótico para o local afetado, explicaram à Lusa os investigadores do
Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto
(i3S), Susana Sousa e Fernando Jorge Monteiro, líderes do projeto
Hecolcap.
Após a eliminação da infeção, o biomaterial existente
na solução promove o recrutamento, a ligação e a proliferação de células
ósseas, resultando num aumento de formação óssea e na redução do tempo
de recuperação do paciente, explicaram.
O tratamento tradicional da osteomielite, segundo os
investigadores, passa, primeiramente, por uma intervenção cirúrgica na
qual é feito o desbridamento (remoção do tecido morto) da zona afetada
pela infeção.
Risco de infeção na técnica tradicional
A
par desta intervenção, os pacientes são submetidos a um tratamento para
eliminar as bactérias que tenham originado a infeção, através da
administração de antibióticos, o que, na grande maioria dos casos,
obriga a um internamento hospitalar durante períodos prolongados. "A
taxa de sucesso desta administração mostra que em 40% dos casos ocorre
recorrência da infeção, o que obriga a que este ciclo de administração
do antibiótico se prolongue, com danos colaterais importantes e custos
muito elevados para os serviços hospitalares", referiram.
De
seguida, a cavidade criada é preenchida com materiais que ajudam à
regeneração do osso, o que cria a necessidade de uma nova intervenção,
com novos riscos de infeção associados. De acordo com os responsáveis,
embora o medicamento disponível no dispositivo não dispense a primeira
intervenção cirúrgica, substitui a administração intravenosa do
antibiótico por uma administração única e localizada, com uma
concentração mais elevada mas que, no total, corresponde a uma
quantidade global menor de fármaco.
quinta-feira, 29 de junho de 2017
Homens vs. mosquito. Bill Gates acreditou nesta vacina portuguesa
Mosquitos.
São uma ameaça importante devido às doenças que podem transmitir:
Malária, Zika, Vírus do Nilo Ocidental, Dengue, Febre Amarela, entre
outras. No entanto, desempenham um papel importante nos ecossistemas
onde existem. Por que razão os devemos temer? Porque a próxima picada
pode ser fatal. Na luta pela sobrevivência entre o Homem e o Mosquito,
Portugal avançou com uma vacina contra a malária que está desde o final
de maio a ser testada em humanos. E tudo começou com financiamento da
Fundação Bill & Melinda Gates.
O
documentário "Mosquito", com estreia mundial a 6 de julho, pelas 21h00,
no Discovery Channel, foi o ponto de partida para uma conversa com o
investigador Miguel Prudêncio, do Instituto de Medicina Molecular (IMM)
da Universidade de Lisboa, responsável pela equipa que desde 2010
trabalha na criação de uma vacina contra a Malária.
Filmado em
quatro continentes, 'Mosquito' junta entrevistas de especialistas e as
histórias de famílias que vivem com medo de que a próxima picada possa
ser a última. Narrado pelo nomeado ao Óscar Jeremy Renner, o
documentário enfatiza a ameaça que este pequeno animal representa.
E que animal é este? Miguel Prudêncio ajuda a descodificar. São os mosquitos os nossos maiores inimigos?
É
difícil fazer generalizações deste tipo. Os mosquitos podem
efetivamente ser uma ameaça importante devido às doenças que podem
transmitir, mas a saúde humana tem muitos outros “inimigos” porventura
tão ou mais perigosos, como o tabaco ou o açúcar. Há diferenças entre mosquitos?
Sim,
há. Existem numerosas espécies de mosquitos diferentes, com habitats
diferentes, preferências diferentes em relação aos hospedeiros mamíferos
de que se alimentam, e capacidades também diferentes de transmitir
doenças. Existe uma elevada especificidade dos mosquitos capazes de
transmitir um determinado patogénio pelo que, desse ponto de vista, os
perigos colocados por diferentes espécies de mosquitos variam
enormemente.
"Sabe-se que o odor corporal desempenha um papel importante nas 'escolhas' feitas pelos mosquitos"
Todos os mosquitos são maus?
Esta
é outra generalização que não se deve fazer. Os mosquitos desempenham
um papel importante nos ecossistemas onde existem, servindo de alimento a
numerosas espécies de animais que se encontram num patamar mais elevado
da cadeia alimentar. Os mosquitos não são “maus” e não picam as pessoas
para lhes transmitirem doenças, mas sim porque isso faz parte do seu
ciclo de sobrevivência. É claro que os mosquitos podem ser muito
perigosos na medida em que podem transmitir doenças graves, como o
Dengue ou a Malária, mas não o fazem por “maldade”. Por que razão os devemos temer? É no mosquito fêmea que se deve focar a nossa atenção?
Os
mosquitos devem ser temidos pelo desconforto que causam (todos sabemos
quão desconfortável pode ser uma picada de mosquito) e pelo seu
potencial de transmitir doenças. São efetivamente as fêmeas que colocam o
problema, pois apenas elas se alimentam de sangue, algo de que
necessitam para completar o seu processo reprodutivo. Como é que os mosquitos escolhem as suas ‘vítimas’?
Diferentes espécies de mosquitos têm
preferências diferentes em relação aos hospedeiros mamíferos de que se
alimentam. Além disso, dentro de cada par de espécies
mosquito-hospedeiro, existem preferências ao nível do indivíduo. Mais
concretamente em relação aos seres humanos, sabe-se que o odor corporal
desempenha um papel importante nas “escolhas” feitas pelos mosquitos.
Curiosamente, também outros fatores podem influir nessa “decisão”,
estando descrito que, por exemplo, a presença em circulação do parasita
da malária numa fase em que este está pronto a ser transmitido aumenta a
atratividade desse hospedeiro para os mosquitos. “Fui picada por um mosquito”. O que se deve fazer após uma picada e que sintomas merecem maior atenção?
Por
um lado, há a questão de como atuar sobre o desconforto causado pela
picada de um mosquito. Nesse particular, a sabedoria popular está cheia
de receitas para “aliviar a comichão”, mas a utilização de um
anti-histamínico tópico parece ser a estratégia mais adequada. Por outro
lado, se a picada ocorrer numa região em que se saiba que há
transmissão de doenças por mosquitos, é prudente ficar atento a
quaisquer sintomas de doença que possam aparecer (febres, dores
musculares, desconforto, etc.) e, no caso de se consultar um médico a
respeito desses sintomas, informá-lo acerca da região que se visitou
anteriormente, e quando essa visita ocorreu.
"Um mito corrente é o de que os mosquitos podem transmitir o HIV/SIDA. Isto não é verdade."
Como é que nos devemos proteger de um mosquito?
A
melhor maneira de nos protegermos contra mosquitos é evitar as picadas.
Existem algumas formas de o fazer, como a utilização de vestuário
largo, de cores claras e que deixe o mínimo possível de pele a
descoberto, a utilização de repelentes, e, nas regiões em que tal se
justifique, a utilização de redes mosquiteiras, nomeadamente durante a
noite. Também é importante saber que existem alturas do dia em que os
mosquitos estão mais ativos, nomeadamente ao amanhecer e ao entardecer,
pelo que as medidas de proteção devem ser reforçadas nesses períodos. Que mitos existem em torno nos mosquitos e das suas picadas?
Um mito corrente é o de que os mosquitos podem transmitir o HIV/SIDA. Isto não é verdade. Quantas
espécies de mosquitos já foram encontradas em Portugal? Quais são as
espécies consideradas importantes ameaças à saúde pública no nosso país?
Existem
cerca de quarenta espécies diferentes de mosquitos em Portugal. No
passado foram responsáveis pela transmissão de Malária, Febre-amarela,
Febre do Nilo Ocidental e dirofilarioses. Atualmente, a vigilância é
altamente necessária pois, tal como aconteceu na Madeira recentemente, mosquitos do género Aedes,
espécies agressivas e responsáveis pela transmissão de diversos
patogénios (por exemplo Zika, Dengue, Vírus do Nilo Ocidental,
Chikungunya, etc.) têm vindo a ser encontrados com prevalência crescente
no Sul da Europa. Que regiões do país são mais afetadas?
Dado
que uma parte significativa do ciclo de vida do mosquito ocorre em
ambiente aquático, as zonas onde há abundância de águas paradas, como
estuários, são particularmente afetadas. E há alturas do ano onde essas regiões são mais afetadas?
Existe
uma variabilidade na prevalência de mosquitos ao longo do ano,
relacionada com a temperatura e a humidade, já que os mosquitos têm
preferências muito estritas em relação a estes dois fatores. Geralmente,
as épocas imediatamente após chuvas abundantes são particularmente
propícias ao aparecimento de mosquitos.
Qual é a doença transmitida pelos mosquitos com maior crescimento no Mundo (em número de casos)?
A
doença transmitida por mosquitos com crescimento mais acelerado nos
últimos anos é o Dengue, com um aumento de 30 vezes nos últimos 5 anos.
"A malária é a doença transmitida por mosquitos que tem vindo a sofrer o maior decréscimo no número de casos a nível mundial."
Em Portugal a tendência é a mesma? O que potenciou o seu crescimento?
Em
termos de doenças que afetam o ser humano, o Dengue é, também em
Portugal, a que causa maiores preocupações. Este crescimento é
potenciado pela introdução de mosquitos do género Aedes,
vetores altamente competentes para a transmissão do vírus do Dengue.
Existem vários fatores a condicionar a introdução de mosquitos e dos
respetivos agentes patogénicos. O transporte de contentores poderá estar
na origem da chegada deste mosquito à Madeira mas as alterações
climáticas, com as estações da primavera e outono mais quentes e
favoráveis à reprodução de mosquitos também ajudam na perpetuação de
agentes patogénicos transmitidos pelos mesmos.
E ao contrário, qual a doença que tem registado uma diminuição do número de pessoas infetadas a nível mundial? E em Portugal?
A
malária é a doença transmitida por mosquitos que tem vindo a sofrer o
maior decréscimo no número de casos a nível mundial. A malária foi
erradicada de Portugal em 1959 e considerada extinta do país em 1973
pela Organização Mundial de Saúde, apenas ocorrendo atualmente casos de
malária “importada”. No entanto, um mosquito capaz de transmitir
malária, Anopheles atroparvus, continua a existir em Portugal e em elevadas densidades, pelo que a vigilância quer-se apertada.
Qual o impacto da malária a nível global?
A
malária tem um enorme impacto a nível mundial, ocorrendo cerca de 200
milhões de infeções anuais, das quais resultam cerca de 420.000 mortes
também anuais, sobretudo em crianças até aos 5 anos de idade.
Quais são as regiões do globo mais afetadas pela doença?
A
malária existe em diversas partes do globo, nomeadamente na África
Subsaariana, Sudoeste Asiático e algumas regiões da América Latina. A
maior mortalidade atribuída à Malária ocorre na África Subsaariana.
E são os seus sintomas, quais são?
Os
sintomas iniciais da malária são febres periódicas, mal-estar geral,
dores musculares, dores de cabeça e anemia. Nos casos mais graves a
malária pode evoluir para síndromas mais sérios como a malária cerebral
ou falhas respiratórias graves, podendo conduzir ao coma e à morte.
Entre o momento da picada e a manifestação dos primeiros sintomas quanto tempo pode decorrer?
Depende da espécie de parasita da malária responsável pela infeção, mas esse período varia entre 7 e 14 dias.
E que tipos de malária há?
Só existe uma malária, mas esta pode evoluir para síndromas diversos, como a malária cerebral.
A vacina portuguesa contra a Malária
Ao
fim de sete anos de trabalho, e depois de testes em células e em
animais, a equipa internacional liderada pelo cientista português Miguel
Prudêncio, do Instituto de Medicina Molecular, em colaboração com o
Centro Médico da Universidade de Radbound, na Holanda, e com a PATH
Malaria Vaccine Iniciative, entidade que coordena mundialmente o
desenvolvimento de vacinas contra a malária, está desde o final de maio a
testar a vacina portuguesa em ensaios clínicos em humanos.
Qual foi o ponto de partida para este projeto de investigação? Quando é que teve início e como tem sido apoiado?
O
projeto teve início em 2010, com uma primeira fase de financiamento por
parte da Fundação Bill & Melinda Gates (BMGF), no âmbito do seu
programa Grand Challenges Explorations (GCE), no valor de 100.000
dólares. Na altura tratou-se do primeiro financiamento do programa GCE
da BMGF a um projeto português.
Em 2012 submetemos o relatório do
trabalho realizado com esse financiamento inicial, e em 2013 obtivemos o
financiamento da segunda fase do programa GCE, financiamento esse que é
atribuído apenas a cerca de 10% dos projetos financiados pela fase 1 do
programa. Foi também a primeira vez (e, que eu saiba, a única) que um
projeto português obteve financiamento de fase 2 do programa
GCE da BMGF. Esse financiamento começou por ser de cerca de 900.000
dólares, a que se seguiram dois suplementos, perfazendo um total de
cerca de 1.5 milhões de dólares.
Em 2015 a BMGF considerou que o
projeto era suficientemente promissor para transitar para a esfera do
Malaria Vaccine Initiative (MVI), uma entidade financiada em grande
parte pela própria BMGF, e que coordena e prioritiza o desenvolvimento
de vacinas contra a malária a nível mundial.
Ainda em 2015, já sob
a esfera do MVI, obtivemos um financiamento de cerca de 250.000 dólares
para prosseguir os estudos necessários conducentes à realização de
ensaios clínicos com a nossa vacina.
Em 2016, tendo concluído todo
o trabalho experimental necessário para a submissão do pedido para a
realização de ensaios clínicos, submetemos esses pedidos às autoridades
holandesas, já que o ensaio será realizado na Holanda.
O ensaio está orçado em cerca de 1,5 milhões de dólares.
créditos: Miguel Prudêncio na conferência da Bill & Melinda Gates Foundation, em Seattle, em outubro de 2014.
Quais foram os momentos mais importantes?
Existiram
diversos momentos marcantes durante a investigação. Para os compreender
há que conhecer minimamente a ideia subjacente a esta estratégia de
vacinação:
- Existem parasitas Plasmodium que causam malária em diferentes tipos hospedeiros. Um deles é o P. berghei, que causa malária em roedores e não é patogénico para humanos.
- A nossa proposta baseia-se na utilização do P. berghei como
plataforma de vacinação contra a malária humana. A ideia de plataforma é
essencial porque a nossa proposta vai além da simples utilização do P. berghei como vacina. O que propomos é utilizar as ferramentas genéticas que hoje nos permitem modificar geneticamente os parasitas Plasmodium para "mascarar" o P. berghei de parasita humano, através da introdução de antigénios do parasita humano no genoma do parasita de roedores.
Entre os momentos mais importantes da investigação contam-se a demonstração que o nosso candidato a vacina, o parasita P. berghei geneticamente modificado (PbVac),
é capaz de infetar as células do fígado humano, condição necessária
para o desenvolvimento de uma resposta imunitária, sendo incapaz de se
desenvolver em glóbulos vermelhos humanos, o que poria em causa a
segurança da vacina. Outro momento crucial foi a demonstração de que a
imunização de modelos animais com esta vacina espoleta uma resposta
imunitária capaz de reconhecer e inibir a infeção pelo parasita humano.
Que dificuldades encontraram ao longo da investigação?
A dado momento tivemos a necessidade de identificar um novo modelo animal em que o PbVac
se comportasse como se espera que se comporte em seres humanos, isto é,
capaz de infetar as células do fígado mas incapaz de se desenvolver nas
células do sangue. Tal modelo não era óbvio já que o modelo
laboratorial mais comummente utilizado, os ratinhos, não preenchia estes
requisitos. Assim, estabelecemos “de raiz” um novo modelo animal capaz
de mimetizar o comportamento esperado do PbVac em seres
humanos. Esse modelo é o coelho e permitiu-nos realizar os ensaios de
imunização que confirmaram a imunogenicidade da vacina.
créditos: Instituto de Medicina Molecular (IMM)
Que evolução permitiu passar dos testes em células e animais para humanos? Nesses testes qual era a taxa de sucesso?
Foram
realizados todos os ensaios passíveis de serem levados a cabo em
modelos laboratoriais e animais. Do conjunto desses resultados
pré-clínicos resultou a demonstração da prova-de-conceito da estratégia
de vacinação proposta, tendo-se obtido taxas de proteção superiores a
90% em modelos animais. De seguida foi necessário levar a cabo um
conjunto adicional de ensaios de segurança visando assegurar que a
administração do candidato a vacina a seres humanos não oferece riscos
para a saúde dos mesmos. Deste pacote de dados pré-clínicos resultou o
nosso pedido de autorização para a realização de ensaios clínicos em
seres humanos.
Como é que se vai processar o ensaio clínico? Quais são as suas fases?
O
ensaio clínico envolve 30 voluntários saudáveis e decorrerá em 2 fases.
Uma primeira fase é de segurança e tolerabilidade e visa avaliar
quaisquer efeitos adversos que possam advir da administração da vacina; a
segunda fase é um ensaio de eficácia, em que a proteção conferida pela
vacina é avaliada comparando o aparecimento de infeção em voluntários
vacinados e não vacinados sujeitos a uma infeção pelo parasita da
malária humana (P. falciparum).
Quando são esperados os primeiros resultados?
São
esperados os primeiros resultados da fase de segurança e tolerabilidade
em setembro de 2017 e os resultados de eficácia no segundo trimestre de
2018.
Qual é o desafio a que esta vacina se propõe em comparação a outras já existentes no mercado farmacêutico?
Não
existem vacinas contra a malária no mercado farmacêutico. O que existem
são diversos candidatos em diferentes fases de testes. O mais avançado
destes candidatos designa-se RTS,S e está em fase de pré-licenciamento.
No entanto, oferece um grau de proteção muito modesto, da ordem dos 30%.
O que gostaríamos de observar era uma taxa de proteção significativamente superior a esta através da vacinação com o nosso candidato a vacina.
Após o ensaio clínico, quais os próximos passos?
Tudo
depende dos resultados obtidos. Se se observar uma taxa de proteção
muito modesta, o desenvolvimento adicional desta vacina fica posto em
causa. Se se observar uma taxa de proteção significativa, esperamos
conseguir uma continuação do apoio do MVI para avançar para as fases
seguintes de ensaios clínicos.
segunda-feira, 26 de junho de 2017
Portugueses descobrem no mar a solução para acabar com os microplásticos poluentes
Pode ser a chave para o grave problema
ambiental dos microplásticos nos oceanos. Chama-se Zalerion maritimum e
acaba de ser descoberta na Universidade de Aveiro (UA).
Trata-se de um fungo marítimo que não
só consegue degradar o microplástico como o faz de forma rápida e
eficiente. Esta é a primeira solução ecológica alguma vez descoberta
para combater os plásticos nos oceanos já que ao otimizar-se o raro
apetite do fungo recorre-se a uma solução oferecida pelo próprio mar.
créditos: Universidade de Aveiro
Comum na costa portuguesa e com um habitat espalhado a vários oceanos do planeta, o estudo
do apetite do Zalerion maritimum por microplásticos foi publicado no
último número da revista Science of The Total Environment tendo sido destacado pelo editor como um verdadeiramente novo campo de investigação.
E
os dados apresentados pelos investigadores do Departamento de Química
(DQ) e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da UA não
deixam margem para dúvidas: isolado em laboratório num ambiente em tudo
semelhante ao do mar poluído com microplásticos, em sete dias o Zalerion
maritimum consegue reduzir 77 por cento daquele material.
“As experiências foram efetuadas, em pequena escala, em
reatores de 100 mililitros usando um volume de 50 mililitros de meio
enriquecido com um mínimo de nutrientes e 0,130 gramas de
microplásticos. Entre 7 a 15 dias foram removidos 0,100 gramas de
microplásticos”, congratula-se Teresa Rocha Santos, a coordenadora do
estudo.
Este trabalho deu os primeiros passos há um ano atrás
pela mão de Ana Paço, então estudante finalista da Licenciatura em
Biotecnologia da UA. Os investigadores do DQ e do CESAM, João Pinto da
Costa e Armando Duarte, são outros dois membros de uma larga equipa
envolvendo outras universidades e centros de Investigação que assinam
igualmente este trabalho que é um primeiro passo rumo à biodegradação
global dos microplásticos presentes nos oceanos.
Solução inédita num fungo quase desconhecido
“Este
é sem dúvida o primeiro estudo a apresentar estratégias de
biorremediação [processo que utiliza organismos vivos para reduzir ou
remover contaminações no ambiente] de microplásticos. Portanto este
trabalho pode ser considerado um primeiro passo e uma contribuição para a
resolução deste problema”, apontam os investigadores.
quinta-feira, 22 de junho de 2017
Público
Centros de saúde vão passar a realizar exames e tratamentos
A ideia é que alguns
dos exames e tratamentos passem a estar disponíveis nos centros de saúde
sem que para isso os utentes tenham que recorrer às urgências.
O Ministério da Saúde vai pôr em marcha o projeto-piloto
“SNS+Proximidade” com o intuito de mudar a forma como os pacientes se
relacionam com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e agilizar o processo
de atendimento dos utentes. A ideia é que alguns dos exames e
tratamentos passem a estar disponíveis nos centros de saúde sem que para
isso os utentes tenham que recorrer às urgências.
Segundo avança o ‘Jornal de Notícias’,
entre os exames que vão passar a poder ser feitos nos centros de saúde
estão as análises clínicas, raio-X, espirometrias, eletrocardiogramas,
reabilitação física e terapia da fala. A iniciativa vai arrancar na
região norte do país, “a única atualmente com condições para avançar com
o projeto” e vai ser apresentado esta quinta-feira no Hospital Pedro
Hispano, em Matosinhos, onde, em conjunto com centros de saúde da zona,
se encontram 18% do total de inscritos da região (657.544 utentes).
Neste projeto, o foco passa a estar no doente e nas suas
necessidades, estando previsto o reencaminhamento dos utentes triados
com pulseira azul ou verde (pouco urgente) para centros de saúde, para
que seja atendido mais rapidamente pelo médico de família.
Além da articulação dos cuidados de saúde, o projeto
“SNS+Proximidade” tem ainda como eixo estruturante a literacia em saúde e
a gestão do percurso de vida. O Ministério da Saúde vai criar um Plano
Individual de Cuidados (PIC), onde o paciente poderá registar os seus
problemas, objetivos e metas a atingir, em parceria com uma equipa de
saúde.
quarta-feira, 21 de junho de 2017
ZAP
Vacina para reduzir colesterol está a ser testada em humanos
Uma vacina que reduz o colesterol e ajuda a prevenir ataques
cardíacos está a ser experimentada em seres humanos voluntários, após
estudos com resultados satisfatórios em ratos, segundo um artigo
científico.
Os ensaios clínicos estão a cargo de investigadores da Universidade Médica de Viena e pretendem concluir se a vacina consegue reduzir as gorduras que bloqueiam as artérias e evitar que os doentes tenham de tomar diariamente comprimidos para minimizar o risco de ataques cardíacos.
Os investigadores avisam que podem ser necessários anos de ensaios para saber se o tratamento é seguro e efetivo, de acordo com um artigo publicado na última edição do European Heart Journal.
Os peritos salientam ainda que, mesmo que a vacina venha a estar disponível no futuro, não pode ser considerada uma desculpa para evitar modos de vida saudáveis, como exercício físico ou alimentação baixa em gordura.
A vacina em testes ajuda o sistema imunológico do organismo a atacar
uma proteína – PCSK9 – que é a que permite que mau colesterol (LDL) se
acumule no sangue.
De acordo com os peritos, citados pela agência EFE, o tratamento experimentado nos ratos reduziu em 50% o colesterol LDL por um período de 12 meses e demonstrou proteger contra a acumulação de depósitos de gordura nas artérias.
A corrida contra o aquecimento global acaba de ganhar mais uma arma de peso. Uma empresa suíça, a Climeworks,
apresentou uma inovadora solução que permite aspirar o CO2 do ar,
retirando-o da atmosfera. É a primeira vez que uma empresa consegue
lançar para o mercado uma solução de captura de CO2 economicamente
viável. Igualmente interessante é o facto de esse CO2 poder ter depois
um sem número de aplicações, dos refrigerantes à produção de
fertilizantes vegetais para a agricultura.
Segundo a Climeworks, as suas centrais aspiram o ar e o CO2 fica
retido em filtros por um processo químico. Sempre que um filtro está
cheio, é aquecido e o CO2 libertado na forma de gás, que é depois
capturado. Cada filtro pode ser utilizado por milhares de ciclos e a
empresa dispõe já de centrais com vários formatos, capazes de se adaptar
a diferentes áreas ou indústrias específicas.
A primeira central foi instalada precisamente na Suíça e tem a
capacidade para aspirar até 900 toneladas, o equivalente à emissão de
200 carros por ano. A meta da Climeworks é de instalar centrais em
número suficiente para conseguir, até 2025, capturar o equivalente a 1%
das emissões globais. A empresa encontra-se neste momento em processo de
expansão do negócio.
Foto: Climeworks
sábado, 17 de junho de 2017
Cientistas produzem substância que bronzeia e previne cancro da pele
Um grupo de cientistas de Boston, nos EUA, descobriu uma
substância capaz de penetrar na pele e bronzear sem a necessidade de
exposição aos raios ultravioleta do Sol, reduzindo o risco de
desenvolver um cancro de pele.
Os cremes autobronzeadores atuais têm apenas o objetivo de colorir a camada superficial da pele, mas a nova molécula estimula as células que produzem os pigmentos, ou seja, engana a pele fazendo-a produzir uma forma castanha do pigmento melanina.
Segundo o estudo
publicado nesta terça-feira na revista científica americana “Cell
Reports”, a substância provou a sua eficácia em amostras de pele e em
cobaias, mas ainda terá de ser submetida a testes pré-clínicos para
saber se é segura para os humanos.
A substância, aplicada como um creme, permitiu
bronzear a epiderme de camundongos de pelo vermelho que, tal como os
humanos, podem desenvolver cancro de pele devido à exposição aos raios
ultravioleta.
Esta investigação foi desenvolvida através de um estudo publicado em
2006 na revista científica Nature que mostrou que outra substância, a
forscolina, produzida por uma planta da Índia, pode induzir o bronzeado
na pele de ratos sem exposição aos raios ultravioleta
No entanto, os cientistas logo descobriram que a forscolina não pode
penetrar na pele humana, que não está protegida por uma camada de pelo
espessa e desenvolveu proteções contra o frio, o calor e as radiações
ultravioleta, entre outros.
“A pele humana é uma barreira formidável, difícil de penetrar. Dez
anos depois, encontrámos uma solução. É uma classe diferente de
compostos, que agem sobre uma enzima diferente que converge no mesmo caminho e que leva à pigmentação“, disse o autor principal do estudo, David Fisher.
“A importância deste novo estudo reside numa nova estratégia de
proteção da pele e de prevenção do cancro de pele. A pele é o maior
órgão do nosso corpo e pode ser afetado pelo cancro, na maioria dos
casos por uma exposição aos raios ultravioleta”, destacou Fisher.
ZAP //
quinta-feira, 15 de junho de 2017
Portugueses descobrem novo mecanismo com efeito protetor contra a sépsis
Uma equipa de investigadores liderada
pelo português Miguel Soares descobriu um novo mecanismo que tem um
efeito protetor contra a sépsis, uma infeção espalhada por diferentes
partes do corpo e que pode ser mortal.
créditos: AFP
O estudo é hoje publicado na revista
científica Cell e foi divulgado em comunicado pelo Instituto Gulbenkian
de Ciência, instituição a que pertence o investigador Miguel Soares.
Nos
últimos cinco anos, esta equipa de investigadores tem proposto que os
doentes que resistem à sépsis desenvolvem uma resposta protetora que
mantém a função dos órgãos vitais, conferindo tolerância à infeção.
“Utilizando modelos experimentais de sépsis em ratos, a equipa de Miguel
Soares descobriu agora um mecanismo que é vital para conferir essa
tolerância”, refere o Instituto Gulbenkian de Ciência.
Segundo os investigadores, um elemento essencial para
promover a tolerância à infeção é a forma como os níveis de ferro são
controlados em diferentes tecidos. Ao mesmo tempo, sabia-se já que a
forma de desenvolvimento (patogénese) da sépsis está associada com a
desregulação do metabolismo da glucose (açúcar).
“O que
descobrimos agora é que estes dois fenómenos estão intimamente
interligados. O controlo do metabolismo do ferro é necessário para
manter a produção de glucose no fígado, de modo a que este açúcar possa
ser usado como fonte vital de energia para outros órgãos”, refere Miguel
Soares na nota do Instituto Gulbenkian de Ciência.
Sebastian
Weis, investigador que se encontra a fazer um pós-doutoramento com
Miguel Soares, induziu sépsis em ratos de laboratório e comparou a
progressão da doença em ratos com ou sem ferritina, uma proteína que
controla o ferro no fígado.
Descobriu então que a ferritina é
absolutamente necessária para que o fígado produza glucose depois da
infeção e, assim, proteger o rato de sucumbir à sépsis.
“Os
nossos resultados mostram que a ferritina controla a produção de glucose
no fígado de modo a que os níveis de glucose no sangue sejam mantidos
dentro de um limite que permita a sobrevivência. Sem ferritina, os
níveis de glucose continuaram a descer e os ratos morreram de sépsis”,
refere Sebastian Weis, atualmente investigador em Jena University
Hospital (Alemanha), onde parte das experiências foram conduzidas.
Cientistas criam técnica que destrói coágulos sanguíneos potencialmente mortais
Investigadores da Universidade da
Carolina do Norte, Estados Unidos, desenvolveram uma nova técnica para
destruir coágulos no sangue que causam as tromboses venosas profundas, a
principal causa de embolia pulmonar, utilizando ultrassom intravascular
de baixa frequência.
A ferramenta, anunciou hoje a
universidade em comunicado, é a primeira “broca” de ultrassom
diretamente orientada para os coágulos, permitindo aos médicos maior
precisão, o que pode reduzir substancialmente o tempo de tratamento. A
nova tecnologia ainda só foi testada em vasos sanguíneos sintéticos.
As
ferramentas do género já existentes emitem ondas de ultrassom
lateralmente, o que torna mais difícil atingir apenas os coágulos e pode
levar o ultrassom a danificar outros vasos. Por outro lado, a nova
técnica fragmenta os coágulos em pedaços muito pequenos, não sendo por
isso necessárias grandes doses de medicamentos para os dissolver.
Há outras técnicas para dissolver os coágulos de forma mais
direcionada mas os pedaços ficam relativamente grandes, sendo por isso
necessárias doses mais elevadas de medicamentos, disse Xiaoning Jiang,
professor de engenharia mecânica e aeroespacial na Universidade citado
no comunicado.
“A nossa abordagem melhora a precisão e não
depende de grandes doses de medicamentos anticoagulantes, o que
esperamos que reduza os riscos de toda a operação”, disse.
Testando
a técnica num protótipo de um vaso sanguíneo sintético usando sangue de
vaca, os investigadores concluíam que podiam “dissolver 90 por cento de
um coágulo em entre três horas e meia e quatro horas sem usar nenhum
medicamento anticoagulante”, referiu Jinwook Kim, autor principal do
estudo. Ferramentas de ultrassom convencionais combinadas com
medicamentos fazem um trabalho idêntico em 10 horas, acrescentou.
O que é uma trombose venosa profunda?
A
trombose venosa profunda é a formação de um coágulo de sangue (trombo)
no interior das veias profundas das pernas ou da região pélvica. O
coágulo de sangue bloqueia o fluxo de sangue e faz com que a pressão
aumente dentro da veia. Parte do coágulo pode libertar-se e mover-se
através da circulação sanguínea até aos pulmões, o que é denominado
embolia pulmonar. A trombose venosa profunda constitui um problema
comum. A maior parte destes coágulos ocorrem quando o fluxo de sangue
nas veias das pernas se torna mais lento, geralmente como consequência
da imobilidade.