quinta-feira, 9 de julho de 2009

PUBLICO
Investigação dos
cientistas vai continuar
Portugueses identificam gene promissor para futuro das células estaminais
Se dissermos que se chama Chd1 não deverá significar nada para si. Este é o nome da proteína encontrada nas células estaminais de ratinhos e que poderá ter um papel importante na sua pluripotência, ou seja, na capacidade que têm em transformarem-se em células de qualquer órgão do corpo. Num artigo publicado hoje na Nature, os cientistas Miguel Ramalho-Santos e Alexandre Gaspar Maia mostram como este gene pode ser uma pista determinante na promissora área da biomedicina.

Vamos simplificar esta descoberta e, para isso, vamos partir do princípio que as células têm portas abertas para alguns quartos (genes) e outras que estão fechadas e, por isso, inacessíveis. A quantidade e o tipo de portas que se abrem dependem do tipo de funções que essa célula é chamada a desempenhar no organismo. É sabido que as células estaminais têm mais quartos abertos que as outras. Assim, apesar de ainda não existirem provas inquestionáveis sobre a relação entre estas portas abertas e a pluripotência destas células, acredita-se que não será um acaso ou mera coincidência. Miguel Ramalho-Santos e Alexandre Gaspar Maia, da Universidade da Califórnia (San Francisco) estudaram os mecanismos moleculares atrás destas características únicas das células estaminais.

Foram identificadas várias moléculas que estão presentes em maiores quantidades nestas células pluripotentes, ou seja, que ocupam vários quartos com portas abertas. Recorrendo a um técnica denominada RNA de interferência (RNAi), foi encontrada uma proteína, chamada Chd1, que despertou uma atenção especial. A eleição da Chd1 foi feita após a selecção de um grupo inicial de mais de 200 genes e um segundo grupo com cerca de 40. “Este era o gene com o fenótipo mais interessante e que ainda não tinha sido descrito”, justifica Alexandre Gaspar Maia, aluno de doutoramento do programa do centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, que fez o seu trabalho no laboratório de Miguel Ramalho-Santos. Para avaliar uma eventual ligação entre este gene e esta capacidade especial das estaminais que se transformam em células de qualquer parte do corpo os investigadores decidiram fechar esta porta, ou seja, silenciaram o gene Chd1 em células embrionárias. Fizeram o mesmo durante o processo de reprogramação que recorre a células diferenciadas nas quais são activados quatro genes e que faz com que regressem ao estado de células pluripotentes (uma técnica já usada e que se acredita que poderá permitir uma fuga à polémica que envolve as células estaminais embrionárias). Os cientistas perceberam que quando a porta do Chd1 era fechada as células (embrionárias e reprogramadas) perdiam muito desta extraordinária capacidade.

Podermos encontrar esta proteína em células estaminais embrionárias nos humanos torna as coisas ainda mais interessantes. Para já, sabemos que quando o Chd1 não está presente faz falta. O próximo passo será perceber os efeitos de uma activação deste gene, ou seja, perceber o que acontece quando abrimos mais portas destas nas células. Vamos fazer com que se tornem ainda mais pluripotentes ou vamos estragar tudo com um “overdose” de Chd1? A investigação vai continuar.
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