domingo, 11 de outubro de 2009

Correio da Manhã

Telomerase: A enzima distingue as células normais das que são tumorais

Novos remédios contra o cancro

A descoberta dos cientistas Elizabeth H. Blackburn, Carol W. Greider e Jack W. Szostak, distinguida com o prémio Nobel da Medicina 2009, trouxe uma nova esperança para o tratamento de diversas doenças causadas por degenerações genéticas, como o cancro. Os avanços na Ciência levaram a que existam actualmente 22 ensaios clínicos de vacinas e fármacos para o combate à doença que representa a segunda causa de morte em Portugal e na Europa.

Os trabalhos agora reconhecidos têm por base uma investigação que, nos anos 30, provou a existência de uma estrutura especial que protege as pontas dos cromossomas, evitando a sua degradação: os telómeros. Posteriormente, e após a descoberta da estrutura do ADN, percebeu-se que este não era totalmente copiado cada vez que as células se dividem. Ou seja, sempre que as células duplicam o ADN, os telómeros sofrem degradação. Este problema, conhecido como ‘end replication problem’, foi solucionado por Elizabeth H. Blackburn que, para além de verificar que os telómeros tinham sequências próprias, descobriu que, após cada ciclo de replicação do ADN, uma enzima restabelece o tamanho dos cromossomas, evitando o seu declínio: a telomerase.

Graças à partilha de conhecimentos e combinação dos seus estudos em ciliados, com Carol Greider, com a investigação genética em leveduras desenvolvida por Jack Szostak, foi possível concluir a universalidade da enzima telomerase, uma vez que organismos totalmente diferentes partilham o mesmo mecanismo de defesa. Devido às investigações destes cientistas foi possível perceber que a enzima telomerase permite distinguir as células normais das que são cancerígenas, pois 80 a 90 por cento dos cancros têm expressão desta enzima.

Para Miguel Godinho Ferreira, investigador principal do Laboratório dos Telómeros e Estabilidade Genómica do Instituto Gulbenkian da Ciência, a descoberta traz "imensas promessas para o futuro", já que permite "o entendimento de que a grande diferença face às células normais é que as células tumorais conseguem reactivar a telomerase e tornarem-se imortais".

Assim, ao criar fármacos que utilizem a inibição desta enzima, as terapias serão menos nocivas para os doentes, já que actuam especificamente nas células cancerígenas, ao contrário do que é feito actualmente. "A previsão é que dentro de cinco anos existam fármacos e vacinas que utilizem a inibição da telomerase no combate ao cancro", referiu Miguel Godinho Ferreira.

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