segunda-feira, 12 de outubro de 2009

i
Finanças Pessoais

Microcrédito. Para quem não tem acesso ao crédito

por David Almas
Desempregados, jovens à procura do primeiro emprego, reformados e imigrantes dificilmente conseguem financiamento. Graças ao microcrédito, o dinheiro chega aos seus projectos e permite a sua integração na sociedade
"Pus o carro à frente dos bois", assume Marcos Santos, que depois de ficar desempregado constituiu a sua própria empresa, montou o escritório e contratou pessoal, mas, pouco tempo depois, percebeu que ninguém lhe iria emprestar dinheiro para arrancar com o seu projecto. Depois de lhe fecharem a porta várias vezes, chegou no início do ano passado ao Millennium bcp Microcrédito. "Deram-me o máximo possível, 15 mil euros, mas era só um décimo do que realmente precisava", conta. Contudo, foi o suficiente para "tornar o negócio viável e liquidar o crédito ao fim de cerca de 12 meses, quando o prazo era de 48 meses". A Tormarine, a empresa que criou em Cascais e que fornece peças e reparações a navios, está hoje livre de créditos.

São muitas as pessoas que, através das vias normais, não têm acesso ao crédito necessário para lançar um projecto que as permita integrar-se na sociedade, mesmo que o plano seja economicamente viável. Normalmente, são desempregados, jovens à procura do primeiro emprego, reformados e imigrantes. Todavia, a solução para essas pessoas está em expansão: o microcrédito, financiamento de baixo montante que exige poucas ou nenhumas garantias, apenas boas ideias e muito empenho. E ideias não faltam: é o caso das vendas de artesanato de Fátima Fonseca, de Fornos de Algodres, de Dany Rangel, que, a partir de Coimbra, vende jogos e banda desenhada, e de Dina Nzambi, que leva a arte das cabeleiras afro às cabeças de Santo António dos Cavaleiros. Estes casos, apresentados no livro "Retratos, 10 Anos de Microcrédito em Portugal", lançado em Dezembro de 2008, quando a Associação Nacional de Direito ao Crédito (ANDC) celebrou o décimo aniversário, começam a contar-se aos milhares. As últimas estatísticas da ANDC e do Millennium bcp, que há quase quatro anos criou a única rede bancária dedicada exclusivamente ao microcrédito, mostram que o número de operações aprovadas em Portugal já ultrapassou os dois milhares.

"O microcrédito não é só crédito: é um serviço que prestamos a pessoas carenciadas que não conseguem trabalhar com a banca. É um serviço de acompanhamento que nenhum outro cliente do banco tem. Os resultados são qualitativos e não quantitativos", conta Helena Mena, directora central do Millennium bcp Microcrédito. Há, no entanto, outro número importante: em quase 11 anos foram criados cerca de 3300 postos de trabalho a partir de projectos de microcrédito.

Condições Os microcréditos contratados por intermédio da ANDC, que tem escritórios em Lisboa e no Porto, ficam bastante baratos: sobre a Euribor a três meses, os empreendedores pagam um spread entre 2% e 3%. Os três bancos parceiros da ANDC - Caixa Geral de Depósitos, Banco Espírito Santo e Millennium bcp - não têm margem para ganhar dinheiro, porque o risco do financiamento é muito elevado. "Não atingimos a sustentabilidade, mas havemos de lá chegar", revela Helena Mena, do Millennium bcp. Os bancos estão dispostos a perder dinheiro, porque o microcrédito insere-se na vertente de responsabilidade social.

Apesar do dinheiro sair dos cofres das instituições financeiras, a avaliação dos projectos é feita pelos técnicos da ANDC. "Mais do que a avaliação, a ANDC ajuda a pessoa a montar o seu projecto, confrontando-a com a sua ideia e ajudando-a a perceber se essa é realmente a via para a sua reinserção", explica José Centeio, secretário-geral da associação, cujos custos de financiamento são suportados na quase totalidade pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional. Até Setembro de 2009, os financiamento atribuídos através da ANDC ultrapassaram os seis milhões de euros.

Fora do protocolo com a ANDC, o Millennium bcp e o BES cobram taxas muito diferentes. "A taxa de juro era de 18%", lembra Marcos Santos, da Tormarine de Cascais, que se financiou junto do Millennium bcp. "É muito, mas foram as únicas pessoas que acreditaram no meu projecto", explica, acrescentando que voltaria a fazer tudo igual. "As taxas não são relevantes", diz Helena Mena. "Com uma diferença de 10% na taxa, por exemplo de 10% para 20%, pagaria mais 40 euros, o que não é significativo para uma pessoa que não tem acesso a crédito", defende, indicando ainda que as taxas são muito flexíveis. "Até temos planos de pagamentos verbais", conta. Além disso, o valor pago pelos empreendedores não é apenas pelo crédito, justifica Helena Mena, uma vez que os gestores de projecto acompanham em permanência o desenvolvimento do negócio, incluindo o desenho do plano de negócio e a formação nas áreas jurídica, financeira e comercial. A rede autónoma Millennium bcp Microcrédito atribuiu quase dez milhões de euros entre Novembro de 2005 e Agosto passado.

O Projecto BES sobre Microcrédito é bastante mais recente. O banco tem um grupo de gestores especializados que, tal como no Millennium bcp, acompanham os empreendedores do início ao fim do contrato. Contudo, o spread praticado é único e fixo nos 6% sobre a Euribor a três meses, qualquer que seja o projecto. Entre Agosto e Setembro foram aprovados 57 mil euros de um total de cerca de 172 mil euros solicitado, revela António Duarte Oliveira, do Gabinete de Microcrédito do BES.

Há cada vez mais entidades a promover o microcrédito, como o Instituto do Emprego e Formação Profissional, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e a Região Autónoma dos Açores, mas que, normalmente, recorrem a protocolos com os bancos. O Montepio, por exemplo, já concedeu cerca de 300 mil euros através da Santa Casa.
Enviar um comentário